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A Ilha revelada em 11 faces
O Caldeirão // O capitão Durval e alguns dos milhares de torcedores que fazem a casa do Sport incendiar durante os seus jogos
Cassio Zirpoli // Diario
cassiozirpoli.pe@diariosassociados.com.br


SportClique para ver o papel de parede.
Foto: Hélder Tavares/DP/D.A Press
Definitivamente, a Ilha do Retiro parece ter vida própria. Na visão dos adversários, diga-se. Um estádio (Bombonilha, caldeirão, etc) capaz de engolir os rivais, onde o empate é quase uma vitória. Um mito recente, resultado da brilhante campanha do Sport na Copa do Brasil do ano passado. Foram seis vitórias categóricas em seis jogos disputados em casa na competição que rendeu a segunda estrela dourada ao Leão. O gramado atrapalha, é verdade, o time leonino está bem ajustado, fato, mas o barulho das arquibancadas vem fazendo a diferença. Arquibancadas que estão longe de apresentar um comportamento uniforme. Historicamente, a Ilha sempre foi um estádio com inúmeras castas, de todos os cantos do Recife. Os torcedores da gerais (atrás dos gols), da arquibancada frontal (onde ficam os estudantes), das sociais e das cadeiras, sempre com ótimos públicos. Cada um com o seu grau de importância.

A geral do placar, por exemplo, é o primeiro setor a aplaudir o time, pois é onde fica a saída do túnel dos vestiários. No lado oposto, a Torcida Jovem faz a Ilha tremer de verdade. Na frontal, surgiu um novo modelo, inspirado nas torcidas argentinas, com músicas mais extensas, mas que já caíram no gosto da galera. A cobrança atrás dos bancos de reservas não fica atrás. Torcedores que já têm "lugar marcado" no estádio, nas 7 mil cadeiras da casa leonina. Exigentes, tanto para cobrar quanto para apoiar. Agora, junte isso tudo no caldeirão, some os milhares de sinalizadores vermelhos nas mãos da torcida e mexa bastante. Assim, finalmente se chega ao ponto ideal da Ilha, fervendo na temperatura máxima. Sem tempero verde.

Caiu na Ilha...

Sport já atuou 1.874 vezes na Ilha, desde a estreia em 1937

1.160 vitórias (61,89%)
412 empates (21,98%)
302 derrota (16,11%)

Sport x Santa Cruz (maior adversário): 254 jogos (115 vitórias, 68 empates e 71 derrotas)
Sport x Náutico 208 jogos (93 vitórias, 58 empates e 57 derrotas)

Maior goleador do estádio: Traçaia (Sport), 114 gols. Ele é o único jogador a marcar mais de 100 gols na Ilha.
20 jogos invicto em casa (15 vitórias e 5 empates)
Última derrota: Sport 0 x 1 Botafogo, 17 de agosto de 2008

Nova geração

Segunda-feira, 30 de março. Todos os 11 torcedores e o zagueiro Durval já se encontravam na Ilha do Retiro para a sessão de fotos que ilustram esta reportagem (além da capa do Diario). Dez deles vestiam as cores rubro-negras. Outro usava o uniforme da Torcida Jovem. E um, o mais novo de todos, usava a não menos nova camisa dourada do Leão. Um símbolo da nova fase do clube, atual campeão da Copa do Brasil e a um passo do tetra no Estadual. Paulinho, de 9 anos, já faz parte da nova safra de torcedores, que crescem orgulhosos das conquistas do Sport. A influência dessa paixão veio dos pais e dos dois irmãos mais velhos. Mesmo assim, Paulinho já tem consciência de que representa o futuro do clube. "Estou confiante de que vamos passar de fase na Libertadores. Na minha escola, é sempre bom tirar onda dos alvirrubros", diz o garoto, cujo aniversário aconteceu em 18 de março. Uma festa temática. Sobre o Sport, é claro.

Paulo Maranhão, 9 anos, estudante, Casa Forte

Símbolos das sociais

Na noite do dia 25 de março, no jogo contra o Ypiranga, Dona Maria José estava lá nas sociais, sozinha, com o seu rádio e a sombrinha, como faz regularmente desde a década de 50. Dona Maria José tornou-se uma figura emblemática no Leão. Tanto que por várias vezes a cena se repetiu naquela noite: torcedores mais jovens chegavam perto daquela senhora de 84 anos para tirar uma foto. Como estava produzindo a pauta, perguntei para dona Maria se ela já tinha encontrado Zé do Rádio naquela noite. "Vi sim. Ele está lá fora com a Treme-Terra. Jajá ele entra aqui". Minutos depois, ao som dos metais, Zé do Rádio realmente apareceu, e seguiu direto até ela. "Ela merece tudo aqui. Eu sou símbolo? Sou nada. Ela é que é", afirmou Zé do Rádio, que ganhou a alcunha em 1999, durante um jogo contra a Portuguesa, então treinada por Zagallo,que o chamou de "torcedor maischato do Brasil" por causa do rádio potente atrás do banco de reservas.

Maria José, 84, doméstica, Graças
Zé do Rádio, 64, aposentado, Prado

Welcome to the jungle

Se tinha um setor da Ilha que parecia não ter vida própria, esse era a geral do placar eletrônico. Era. Há quase um ano, os intervalos dos jogos na casa rubro-negra são agitados justamente ali, pela presença do astro do rock Axl Rose. Pelo menos do sósia dele, o professor Márcio Edgard. De óculos de grau e cabelo preso, ele passa como mais um anônimo. Mas quando chega o intervalo, o som da Rádio Ilha muda tudo. Basta tocar o sucesso Sweet Child O´Mine, do Guns N´Roses, para Márcio assumir a aura de Axl, numa performance que conta com o apoio dos outros torcedores, que entram na onda. "Começou porque eu gosto muito dessa música, e cantava para a minha filha, Lívia Rose (uma homenagem a Axl). No dia que tocou pela primeira vez (Sport 2 x 2 Grêmio, 16/07/08), eu me empolguei. Foi na natural, e a torcida bateu palmas. Agora, sempre me cobram ", disse o "Axl da Ilha", que dessa vez irá ouvir na Ilha Welcome to the Jungle. Traduzindo: Bem vindo à selva.

Márcio 'Axl Rose' Edgard, 34, professor, Ibura

Brava caminhada

Cantar durante 90 minutos, independente do resultado. Exigência? Apenas a camisa do clube e o "gogó" resistente. Assim são conhecidas as barras, as torcidas com estilo semelhante ao dos estádios argentinos. Algo que vem se tornando moda no Brasil. No Sport, a Brava Ilha ganha cada vez mais adeptos. Se antes as músicas mais longas eram 'difíceis' para o restante da torcida, agora os cantos começam a se popularizar. O principal deles é o "Vamos, vamos meu Leão", como relata o estudante Carlos Júnior, um dos idealizadores do movimento. "A gente estava cansado daquele jogo morno. É um trabalho para revolucionar a torcida, já que quanto mais a gente cantar, maior a chance de vitória". Formada em sua maioria por estudantes, que ficam na arquibancada frontal, a Brava coostumar realizar uma caminhada da frente da sede do clube até o portão de entrada da ILha. "Contra a LDU, mais de 400 pessoas seguiram a gente, e todos cantaram", disse. O bordão da Brava? Da luta vem a vitória.

Carlos Júnior, 24, estudante, Candeias

Aquecendo o caldeirão

A Ilha sempre foi a maior arma do Sport, mas em 2008 ela ganhou um ar "místico". Começando pelo visual, semelhante a um caldeirão mesmo, com todas aquelas luzes vermelhas incendiando o estádio. O fato de três mil sinalizadores terem sido ligados na final da Copa do Brasil, contra o Corinthinas, não foi coincidência. Foi tudo minuciosamente organizado pela internet, em fóruns sobre o clube. Um dos criadores da ideia é o operador de sistemas Wolcely Souza, de 29 anos. Basta ter uma folguinha do trabalho para ele acessar o Orkut e checar se mais membros aderiram ao projeto. "Tivemos essa ideia justamente contra o Palmeiras, no ano passado. Queremos repetir aquilo, pois fica muito bonito, como se a Ilha estivesse pegando fogo". No tópico criado por ele, o torcedor temas informações necessárias para adquirir o sinalizador, que custa R$ 2,10. "Contra a LDU foram 1.032, na campanha 'Incendiano a Libertadores'. Agora, queremos bem mais", disse.

Wolcely Souza, 29, operador de sistemas, Jd. Atlântico

O pulmão amarelo

As cores dos Sport são as mesmas há 103 anos. Vermelho e preto. Além do rubro-negro, porém, outra cor domina o estádio quando o time entra na Ilha. No tobogã do lado esquerdo da cabines de TV, localiza-se o verdadeiro pulmão da Ilha, com a Torcida Jovem e a sua incofundível cor amarela, além do grito "Uh! A Jovem arrêa!" No último domingo, contra o Santa Cruz, cerca de cinco mil integrantes viram o clássico. Devido ao valor do ingresso na Libertadores, hoje deverão ser cerca de três mil. Ainda assim barulhentos, instigantes. Com direito a uma azeitada bateria, formada por 20 pessoas. Segundo o diretor de patrimônio da organizada (e que também cuida da bateria), Rodrigo Marques, a torcida está preparando uma ação especial hoje à noite. "Esse jogo é como se fosse uma final. A ilha vai feverer. Estamos levando 20 bandeiras, bandeirão, dois mil balões# A festa vai ser bonita", afirmou. Essa torcida respira a vitória.

Rodrigo Marques, 23, vendedor esportivo, Boa Vista

Treme terra e ouvidos

Os músicos são contratados. Ok. Mas mesmo assim existe um pré-requisito. Para integrar a famosa orguestra da Treme-Terra, os músicos precisam ser torcedores do Sport. Presidente há três anos da Treme-Terra, João Mansinho segue a rotina desde 1980, com a apresentação que levanta o público das sociais, e, consequentemente, do restante do estádio, que sabe de cor e salteado os 14 frevos gravados. "A Treme-Terra é um dos maiores símbolos do clube, que sequer é uma torcida organizada, mas uma animadora de torcida", falou Mansinho, que assumiu a orguestra após o falecimento do fundador, Serverino Vitor. "Desde 1980, nunca deixamos de aparecer em um jogo. De amistoso à Libertadores", completou Mansinho. A entrada é bem programada. Acontece faltando 20 minutos para o jogo, para levantar de vez os rubro-negros. E sempre funciona. Ou seja, quando o relógio marcar 21h30, começa de vez o carnaval na Ilha.

João Mansinho, 63, líder comunitário, San Martin

A voz da Ilha

"Peeeeeeeelo Sport nada!". Diante de 30 mil fanáticos, o famoso grito de guerra do Sport é puxado via alto-falantes da Rádio Ilha. Pois a tal voz é a do radialista Júnior Viana, fundador da Torcida Jovem. Aos 41 anos, Viana - que apresenta o Programa do leão, Capibaribe AM 1240 - teve a ideia de criar o cazá-cazá em uníssono em 2007, com o vice de Marketing do Sport, Carlos Frederico. "Queríamos algo exclusivo para a Ilha. Hoje, basta anunciar o Toque da Alvorada que todos sabem que vem o cazá-cazá", diz Júnior Viana, que prepara uma programação quase 100% nordestina para esta a noite (a exceção será a música do Guns N´Roses). "Tambem criamos bordões. Ciro é o 'exterminador do futuro', por exemplo", diz o locutor, que foi na Ilha pela primeira vez em 1975, aos 8 anos. "Muita gente falou que se fala da Ilha 'antes' e 'depois' da Rádio Ilha Faço isso tudo com paixão pelo Sport", afirmou o locutor/torcedor.

Júnior Viana, 41 anos, radialista, Caxangá

7 mil Nelsinhos

Cadeiras especiais, de ampliação, de aluguel. Juntando os três setores, o número de assentos na Ilha chega a sete mil. Tradicionalmente, é a parte da Ilha com a maior cobrança. São milhares de técnicos, todos eles também politizados com o clube. As alas dos 'talibãs' e 'urubus' (hoje em suposta paz, por causa da boa fase do time). Devido ao excesso de cobranças, o comerciário Luiz Alcântra, de 48 anos, até deixou de frequentar a cadeira frontal, indo para uma ala mais moderada, na curva de Dubeux. "O pessoal das cadeiras é muito exigente. Muitos começam a xingar com apenas 10 minutos. O apoio é grande também, pois sempre estão lá. Tanto que você encontra as mesmas pessoas. E já sabe o que cada um vai reclamar", brincou Luiz, conhecido como "Júior do Sindicato", um grupo (hoje com 100 membros) criado para apoiar o clube. Quer participar? Basta ir ao bar "Buraco do Zé", no Ginásio Marcelino Lopes. Só não vale cornetar.

Luiz Alcântra Júnior, 48 anos, comerciário, Prado

Apaixonada pela Ilha

Há algum tempo o perfil feminino nos estádios de futebol vem mudando. Se um dia a maioria das mulheres foi ao campo acompanhando o namorado, azar o dele se não quiser ir hoje... A estudante de direito Fernanda Cavcalcanti, 21 anos, ilustra bem esse perfil. Desde os 7 anos ela criou o costume de frequentar a Ilha, levada pelo pai. Desde 2005, porém, ela já faz o contrário. Se organiza com amigos para ver o jogo na casa rubro-negra. "A Ilha do Retiro simplesmente se tornou um vício na minha vida. Sabe quando você conta as horas para chegar determinado momento? Não assitimos o jogo. Vivemos o jogo", afirmou Fernanda, que acredita que a presença feminina no Sport deverá crescer ainda mais. "Acho impressionante como a torcida feminina está cada vez mais presente, e no Sport não é diferente. Isso não é por causa do resultado. Se tornou realmente um fanatismo", disse Fernanda, que ainda é moderadora de uma comunidade sobre o Sport no Orkut.

Fernanda Cavalcanti. 21, universitária, Parnamirim


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Edição de quarta-feira, 8 de abril de 2009 
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