Polêmica e diversidade norteiam as opiniões acerca da exigência de cadastramento do público como condição para a entrada nos estádios - prevista como uma das alterações do Estatuto do Torcedor para qualificar a segurança nos redutos esportivos. Uma amostra do discurso fervoroso colocou o presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), Carlos Alberto Oliveira, e o consultor jurídico do Ministério dos Esportes, Wladimyr Camargos, em lados opostos. O bate-boca ocorreu, ontem, durante a realização do 1º Seminário Internacional Torcendo pela Paz, no Recife.
Eis alguns trechos do embate: "Vocês querem burocratizar o futebol. As pessoas que decidirem ir, de última hora, para o estádio, vão ser impedidas, pois não realizaram cadastro. Obrigar a posse de uma nova carteira em um país que muitos sequer possuem certidão de nascimento é um absurdo", acusou Carlos Alberto. "Se você prestou atenção, disse que não iremos produzir novas carteiras. Estamos estudando o melhor modelo para o controle. Pode ser através de máquinas de sensor biométrico ou lançando dados da Carteira de Identidade em um software. Não iremos repassar ônus aos clubes e vamos impedir o acesso de infratores", rebateu Wladimyr.
O tom ficou áspero e a voz aumentou de volume no decorrer da discussão. Por fim, Carlos Alberto se auto-definiu. "Sou presidente do órgão regulador do futebol no estado, mas o Conselho Arbitral decide a fórmula do campeonato, a Justiça decide as punições e por aí vai. Sou uma verdadeira Rainha Elizabeth. Ou seja, não mando em nada", declarou. De certo, a partir de 2010, as competições organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) irão ser aplicadas com o cadastro dos torcedores.
Um ponto de concordância entre ambos foi o de que, durante as partidas, é necessário sentenciar ao infrator o comparecimento a uma unidade judicial. "Caso contrário, ele vai assistir ao jogo em um bar, tomando cerveja. Isso é punição?", questionou Carlos Alberto. Para atender à demanda das penas alternativas, o Juizado do Torcedor ganhou nova sede. Inaugurado na tarde de ontem, o espaço fica na Rua do Futuro, bairro das Graças, no Recife, e conta com setor psicossocial, salas para conciliação, instrução e reunião, auditório e gabinete de juiz.
O seminário contou, ainda, com a presença de chefes de corporações policiais, representantes dos ministérios Público de Pernambuco e da Justiça e de dois ingleses responsáveis por ações implementadas no combate à violência nos estádios de futebol do país europeu. Nick Hawkins e David Bohannon discorreram sobre experiências hesitosas na coibição dos atos provocados pelos hooligans. Embora reserve peculiaridades regionais, os mecanismos de enfrentamento sempre permeiam entre legislação, orientação, fiscalização e repressão.