Um garoto. Viciado em crack e maconha. Apenas 16 anos. Este é o perfil do adolescente que tirou, na última quinta-feira à noite, a vida do padre espanhol Ramiro Ludeña Y Amigo, em Pernambuco desde 1974. Não havia motivos pessoais, segundo ele mesmo confessou, ontem, à polícia. Era uma tentativa de assalto, que terminou frustrada. O tiro dado por ele, de surpresa, sem pensar, tirou não só a vida de um padre, mas de um homem que tinha como principal compromisso doar-se aos jovens e adolescentes. Gente como o próprio infrator, que vivia nas drogas, no tráfico ou na vida sem perspectivas de comunidades carentes. O tiro foi mais longe do que se pode imaginar. Mas não o suficiente para suspender o projeto iniciado por ele há 20 anos, em Jaboatão dos Guararapes. O enterro será às 17h de hoje, no Cemitério do município.
As mãos que tiraram a vida do padre não tiveram força para sustentar o impacto da espingarda artesanal calibre 12 que usava na emboscada. Mas tiveram força para colocar uma mochila nas costas e seguira rotina, como se nada tivesse acontecido. Após matar o padre, o adolescente foi para casa dos pais, dormiu e ainda agiu com naturalidade, ontem, indo para escola no horário determinado. Só foi apreendido ao sair da unidade de ensino, depois de ligações feitas para o Disque Denúncia e buscas das polícias civil e militar.
"Ele abordou o veículo (uma Hilux) quando o padre estava saindo da casa de uma amiga, no bairro de Areias (Zona Oeste do Recife). Ele confessou que o objetivo era o assalto. Só que ele se assustou, quando o padre mexeu no freio de mão e atirou", disse o gestor do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado Joselito Kerle, acrescentando que o jovem foi encaminhado para a Gerência da Criança e do Adolescente.
Enquanto um garoto era apreendido pela morte do padre, outro jovem, que poderia ter tido a mesma trajetória, disse ter começado a viver graças a Ramiro. José Timóteo Soares nasceu em 21 de outubro de 1977. Mas não foi nessa data que ele começou a viver. A vida, tal qual ele conhece hoje, encontrou ao conhecer Ramiro em 1992. Menino de rua que vivia perambulando de abrigo em abrigo, depois de o pai matar sua mãe, em 1982. Timóteo foi uma das crianças que teve a história transformada pelos ideais que o padre acreditava. "Depois que minha mãe morreu, eu fiquei sozinho, minha família me desamparou. Ele foi como um pai para mim", lamentou.
"Será que vale a pena tudo isso?". Essa foi a pergunta feita, ontem, por muitos amigos do padre Ramiro. Mas a resposta à dúvida, ainda que dolorida, não poderia ser outra. "O projeto continua. O que ele plantou, a gente vai ter que vingar. Não vamos deixar morrer tão cedo", observou o coordenador da ONG Movimento de Apoio aos Meninos de Rua (Mamer), no bairro do Socorro, em Jaboatão.
(Aline Moura e Késia Souza)