Brasília - Uma pílula para tratar o infarto e a hipertensão poderá, um dia, ser a tábua de salvação de pacientes com distúrbios de ansiedade e estresse pós-traumático. Ainda que a aplicação clínica do remédio para esse fim esteja distante, cientistas holandeses foram bem-sucedidos em apagar do cérebro a resposta ao medo e em suavizar as memórias ruins. Merel Kindt, psicólogo da Universidade de Amsterdã, e sua equipe usaram bloqueador-beta propanolol, indicado para angina e arritmia cardíaca. "O propanolol bloqueia os receptores noradrenérgicos na amígdala, perturbando a síntese da proteína ligada à memória do medo", explicou o pesquisador.
Kindt contou que os 60 voluntários do estudo publicado pela revista Nature Neuroscience adquiriram uma associação de medo ao verem uma fotografia de uma aranha e ao receberem choques elétricos nos pulsos. "Esse teste fez com que eles aprendessem a temer o inseto", disse o psicólogo. "Depois de vários testes, a apresentação da figura da aranha era o bastante para evocar a reação de medo". No segundo dia da pesquisa, parte dos voluntários recuperou a memória do medo, enquanto o propanolol ainda não havia sido administrado. "No dia seguinte, vimos que a reação ao medo havia se dissipado, mas apenas em voluntários que haviam tomado o propanolol", relatou. Os componentes do grupo placebo voltaram a sentir medo no mesmo dia, após observarem a foto.
Segundo Kindt, o que mais surpreende é que, mesmo diante da recuperação da memória do medo, os voluntários do grupo experimental não mais sentiram pânico. Em tese, reagiram de modo indiferente a uma imagem que antes lhes despertava lembranças e sentimentos ruins. O autor do estudo explicou que os bloqueadores-beta podem ser utilizados em combinação com a ativação de memórias de medo latentes. "Nossas descobertas estão longe de aplicações clínicas, mas poderíamos usar as bases desse estudo no tratamento da desordem de estresse pós-traumático, por exemplo", garantiu.
Testes anteriores em animais já haviam mostrado que as memórias do medo podem se transformar quando reativadas - um processo chamado de reconsolidação. Os cientistas também imaginavam que a reconsolidação, por sua vez, era vulnerável aos bloqueadores de receptores noradrenérgicos. "O objetivo dessas drogas não é fazer as pessoas esquecerem suas experiências traumáticas, mas reduzir a intensidade das memórias a um nível normal, para que elas possam conviver mais facilmente com elas", explica Roger Pitman, que trabalhou na pesquisa. O próximo passo seria testar o tratamento nestes pacientes e analisar por quanto tempo o beta-bloqueador seria capaz de amenizar a memória dolorosa.
Ética - Investigadores britânicos já vieram, contudo, alertar para as questões éticas da aplicação deste medicamento nestas situações. Citado pela BBC, Paul Farmer, diretor do hospital psiquiátrico Mind, diz estar preocupado sobretudo com essa abordagem farmacológica em doentes com fobias e ansiedade. O médico teme que o remédio altere também as boas memórias ealerta para a possibilidade de acelerar a doença em pacientes com Alzheimer.