A declaração do arcebispo dom José Cardoso Sobrinho contra o aborto fez reacender a polêmica sobre a prática condenada pelo Vaticano, mas legalizada no país nos casos de estupro e de risco para a saúde da mãe. Ao longo do dia de ontem, teólogos, médicos e políticos se manifestaram em relação ao ato de repúdio da Igreja em todo o Brasil. O Sindicato dos Médicos de Pernambuco expressou, em nota, solidariedade à equipe médica do Centro Integrado Amaury de Medeiros (Cisam), no Recife, que realizou o procedimento na menina e agiu de forma "ética e humana em defesa da vida".
O filósofo e teólogo João Batistiolle, ex-professor da PUC-SP, declarou publicamente estar contra a posição do líder eclesiástico, que ele classificou como "gravíssima" e "irresponsável". "Ele (o arcebispo) queria levar adiante uma gestação em uma menina que sofreu estupro e corria risco de vida. Beira a irresponsabilidade desconsiderar a avaliação dos médicos", disse. Para ele, a Igreja, neste caso, optou por reafirmar os dogmas da doutrina católica em vez de dar uma resposta humanista à sociedade. E acredita que, assim, a instituição perde credibilidade. "A Igreja não está preocupada se irá perder fiéis. Mas o mais grave é a falta de humanidade e caridade para com os pobres brasileiros que passam por experiência dramáticas como essa", afirmou.
O pediatra e teólogo pernambucano Assuero Gomes acha que o arcebispo tomou uma decisão condizente com a posição hierárquica. "Ele foi legalista. Do ponto de vista jurídico, ele está cumprindo o seu papel. A sua posição é defender o pesnamento doutrinário da Igreja, que condena quem pratica o aborto", contemporizou.