Como estava previsto no acordo assinado na última terça-feira por fazendeiros, ouvidores agrários e
representantes dos trabalhadores sem-terra, a desocupação da Fazenda Jabuticaba, localizada no município de São Joaquim do Monte, no Agreste do estado, ocorreu de forma tranquila ontem. Nem de longe o local lembrava o "barril de pólvora" do dia 21 de fevereiro, quando quatro seguranças da propriedade foram assassinados por agricultores instalados na Fazenda Consulta, a 11 quilômetros da área. Dos 110 acampados que estavam na Jabuticaba, segundo informações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), apenas 40 pessoas ficaram para receber a comitiva do ouvidor agrário nacional, Gersino Silva Filho, vindo de Brasília (DF) para tentar selar a paz nas duas fazendas pernambucanas. O ouvidor prometeu enviar cestas básicas mensais às famílias dos ex-ocupantes.
"Vamos entregar cestas mensais aos trabalhadores deste acampamento, para evitar que eles voltem à fazenda em busca das roças que plantaram. Eles nãopoderão voltar à terra em hipótese alguma até que seja feita a medição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A medida é excepcional, para evitar novos conflitos. No restante do país os trabalhadores só recebem cestas quatro vezes ao ano", explicou Gersino Filho. A medida não agradou o agricultor José Jorge Silva, de 21 anos, um dos últimos a sair da ocupação. "Aqui plantamos milho, feijão e macaxeira. Gostaria de voltar na época do plantio, para não perder o trabalho. Mas vou acatar o que o movimento disser", garantiu.
José Jorge e seus companheiros "mudaram-se" para uma propriedade próxima à fazenda. A exatamente um quilômetro do antigo acampamento, na terra do filho da integrante do MST Teresinha Barbosa. Apesar da derrota de ontem, os trabalhadores ainda sonham em voltar para a Fazenda Jabuticaba. Onde, disseram, "há terra fértil". Na próxima segunda-feira, técnicos do Incra vão medir a área com o uso de GPS. Se a terra for superior a 525 hectares, poderá ser pleiteada para reforma agrária. Caso contrário, ficará imune e só pertencerá aos seus atuais donos.
Esse impasse motivou a chacina do dia 21 de fevereiro, causada pela tensão entre trabalhadores acampados e seguranças contratados pelas fazendas. "Se for confirmada que a Jabuticaba é inferior a 525 hectares, o Incra vai providenciar terras disponíveis para abrigar esses agricultores, em outras fazendas da região", prometeu o ouvidor agrário nacional. Ele descartou a Fazenda Esperança, que funciona dentro da Jabuticaba, no processo de medição. Gersino disse que a propriedade, pertencente à Igreja Católica, é estruturada e funciona de forma independente. A área possui 302 hectares.