A menina de nove anos moradora de Algoinha, no Agreste, que foi abusada pelo padrasto e está grávida de quase quatro meses de gêmeos, ainda não abortou os dois fetos. A criança continua internada na maternidade de alto risco do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip), na Boa Vista, no Recife. Ela está recebendo assistência médica e é acompanhada por uma equipe multidiciplinar, que inclui ginecologistas, psicólogos e assistentes sociais. A interrupção da gravidez foi solicitada oficialmente no último sábado pela família da vítima. Ainda no final de semana, os médicos do Imip iniciaram o procedimento para realizar o aborto legal, previsto no Código Penal brasileiro. A menina começou a tomar medicação a expulsão. O processo pode levar dias.
Com 15 semanas de gestação, a criança está sendo submetida a um método de interrupção de gravidez mediante à indução prévia com o uso de medicamento aplicado em soro via endovenosa. Dessa forma, os fetos serão expelidos pela vagina. Por isso, durante todo o procedimento, a paciente está recebendo analgésicos para controlar a dor. Somente após a eliminação total dos fetos, será realizado o esvaziamento uterino com curetagem. Nessa fase os riscos de complicações variam de 3% a 5%, segundo o protocolo de Assistência Integral à Vítima de Violência Doméstica e Sexista da Secretaria de Saúde do Recife. Desde 1940, a legislação brasileira permite que o aborto seja realizado em vítimas de estupro e que correm risco de morte, sem autorização judicial. A menina se enquadra nas duas situações.
Estrutura - Segundo os médicos que a examinaram, ela não possui estrutura física para suportar uma gestação gemelar. A menina está sendo acompanhada pela mãe. A irmã mais velha, de 14 anos, que é deficiente física e também foi abusada sexualmente pelo padrasto, voltou na última sexta-feira para Alagoinha e está sob a guarda do pai. Na sexta-feira, as duas irmãs realizaram exame sexológico no Instituto de Medicina Legal, onde ficou confirmado o abuso sexual. A perícia também constatou que as irmãs estão com inflamação vaginal, provocada possivemente pela contaminação de doenças sexualmente transmissíveis.
A gravidez foi descoberta na última quarta-feira, quando a criança foi levada pela mãe para fazer exames na Casa de Saúde São José, em Pesqueira. O médico ginecologista José Severiano Cavalcanti desconfiou de que os sintomas relatados pela paciente - enjoos, tonturas e fortes dores de cabeça -pudessem se tratar de uma gravidez. O que acabou sendo confirmado por meio de ultrassom. O padrasto foi preso no dia seguinte à noite. A população da cidade ficou revoltada e tentou linchá-lo antes dele chegar à delegacia. Por medida de segurança, ele encontra-se numa cela isolada no Presídio de Pesqueira. A menina grávida disse, em depoimento, que era abusada desde os seis anos.