Das prateleiras, eles são escolhidos e levados para casa. Sem tarja preta, recebem o rótulo de "inofensivos". Vão parar em gavetas e armários de fácil acesso. Na intenção de prevenir doenças, os consumidores mantém bem perto o principal vilão nos casos de intoxicação: os medicamentos.
 O coordenador do Serviço de Toxicologia do estado (UFPE), Arquimedes Melo, lembra que os pais devem ter cuidado na hora de guardar as medicações. Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A Press |
Eles são os primeiros colocados entre todos registros do Hospital da Restauração (HR), unidade referência de Pernambuco. Apenas neste ano, 47 das 109 notificações no HR tiveram essa causa, sendo 18 entre crianças. No ano passado, foram 304 com 95 crianças. Um número que assusta também no cenário nacional. As estimativas são de 4 mil óbitos em decorrência do uso inadequado de remédios em 2008. Mais da metade entre os pequenos.
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Os medicamentos de uso cotidiano são mais perigosos por causa da automedicação"
Arquimedes Melo - farmacêutico
O farmacêutico e coordenador do Serviço de Toxicologia de Pernambuco (UFPE), Arquimedes Melo, destacou que a estimativa de mortes é proveniente de análises da produção de remédios, do comportamento dos consumidores e dos casos de intoxicação. "Existe um problema crônico de subnotificação no Brasil. Além disso, a maneira de registrar também falha", afirmou, referindo-se aos casos em que a causa da morte não é profundamente identificada. "O atestado de óbito diz hemorragia ou falência de órgãos, mas o uso inadequado do medicamento pode ter desencadeado", assegurou. Diante dessas dificuldades, o relatório mais recente do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) é de 2006.
Naquele ano, foram registrados 32,8 mil casos, com crianças menores de 5 anos correspondendo a 35% dos casos. Arquimedes, que também é chefe do Centro de Toxicologia da Paraíba, destacou que os números totais podem ser 40% mais altos com uma participação infantil de até 60%. "As crianças são as maiores vítimas. Tanto pela auto-medicação dos pais quanto pelo descuido. Os medicamentos são muito atraentes para eles", destacou. A facilidade no acesso a substâncias tóxicas também justifica a intoxicação por veneno, que em Pernambuco é a segunda causa com 171 casos em 2008, sendo 54 em crianças, segundo o HR. As outras causas de intoxicação são alimentos, drogas e bebidas alcoólicas.
Entre os remédios, os de uso cotidiano são os mais perigosos por conta da automedicação ou do descuido com o armazenamento. O consumo de 10 comprimidos de paracetamol, esclareceu o estudioso, pode ser mais danoso do que duas caixas de um forte tranquilizante. "No caso de um sonífero em excesso, a pessoa ou mesmo a criança pode dormir por dois dias. O outro provoca hemorragias, compromete os órgãos e leva a morte", destacou Melo. Mesmo assim, ele não reduz a ameaça oferecida por qualquer remédio e cita um caso trágico. Uma garota, com menos de quatro anos, encontrou os tranquilizantes da avó pela casa e tomou quatro comprimidos. Ela ficou tonta e caiu em um balde com água. Morreu afogada.
"Esse caso é uma tragédia e mostra a necessidade de atenção ao assunto. Em caso de acidente o primeiro passo é correr para uma emergência pois nunca se sabe", ressaltou. Melo lembrou que a ingestão de anticoncepcionais também é comum entre meninas, já que as mães costumam deixar as pílulas - pequenas e fáceis de engolir - visíveis para não esquecer de tomá-las. E, assim, os contraceptivos se tornam uma tentação para as pequenas. "Já atendi uma menina que tinha tomado 24 comprimidos. Como ela só tinha 3 anos não aconteceu nada. Se fosse um pouco mais velha poderia ter menstruado", ponderou, citando ainda a possibilidade de um desequilíbrio hormonal a longo prazo.
O risco nos armários
O paracetamol
Doses tóxicas, ou seja, o dobro ou o triplo da dose terapêutica, causam hepatoxicidade grave e nefrotoxicidade. Isto é, podem causar necrose ou câncer no fígado e nos túbulos renais. Mais de cinco comprimidos em 24 horas já são suficientes para esses danos
O AAS ou ácido acetilsalicílico
Inibe a agregação plaquetária de modo irreversível e, por isso, pode provocar hemorragias, sobretudo as digestivas, também pode gerar gastrite erosiva e úlcera hemorrágica e salicismo
O contraceptivo
De imediato não provoca danos, mas a longo prazo pode provocar a antecipação da primeira menstruação e desequilíbrio hormonal. Em raros casos, pode causar a menstruação em meninas com menos de 5 anos
Como Previnir:
- Mantenha todos os produtos tóxicos em local seguro e trancado
- Os remédios são ingeridos por crianças que os encontram em local de fácil acesso, deixados por adultos
- Nunca deixe de ler o rótulo ou a bula antes de usar qualquer medicamento
- Evite tomar remédio na frente de crianças
- Não dê remédio no escuro para que não haja trocas perigosas
- Cuidado com remédios de uso infantil e de adulto com embalagens parecidas
- É importante que a criança aprenda que remédio não é bala, doce ou refresco; quando sozinha, ela poderá ingerir o medicamento; lembre-se: remédio é remédio