Os arranjos de metais da primeira faixa do disco novo do Paralamas não deixam dúvidas: a banda voltou a ser o Paralamas de sempre.
 Banda que lança CD Brasil afora diz que não gosta da nostalgia dos anos 80. Foto: Mauricio Valladares/Divulgação |
Muito ska, reggae e baiões embutidos sob um clima mais roqueiro impregnam na maior parte das novas canções de Brasil afora. O clima é ensolarado, apesar de letras que ainda refletem o drama irreversível do cantor e compositor Hebert Viana. Não há dúvidas, porém, que as feridas foram cicatrizadas. O que não dá é para negar a situação real. Aposte em mim, Taubaté ou Santos e a própria Brasil afora são extremamente autobiográficas. Hebert, segundo o baterista João Barone, continua a falar sobre suas vivências nas músicas, mas faz isso de maneira cada vez mais elaborada. "Acho bom que cada vez menos as pessoas fiquem perguntando do drama pessoal, isso tudo já é pauta velha, né? Estamos aí indo em frente. O Herbert é um exemplo de força e obstinação", diz ele, em entrevista ao DIARIO, por e-mail.
Produzido por Liminha, o CD é completamente pop, e tem algumas candidatas a hit, caso sejam trabalhadas em rádio. A lhe esperar, por exemplo, é uma das mais comerciais, apesar de ser uma dessas "elaboradas" que Barone fala. Feita por Arnaldo Antunes e Liminha é um exemplo, segundo Barone, de como Hebert vem sempre numa melhora. "Memorizar a letra de A lhe esperar é um desafio para qualquer um, e ele internalizou a letra muito rapidamente", diz o amigo. O cantor, depois do acidente de 2001 que vitimou sua mulher e o deixou paralítico após 40 dias em coma, também ficou com déficit de memória recente para certas coisas. Hebert mostra-se, neste CD, estar muito mais animado e disposto, em todos os sentidos. Algumas letras refletem seu estado.
"Brasil afora/ Brasil adentro/ todo inteiro sem demora/ não viver a causar pena/ por cuidar tanto das pernas/ conhecer uma pequena/ que me entregue o coração/ me dei conta que no mundo/ tanta gente vive assim/ ver sentido mais profundo/ no vão entre o não e o sim", escreveu Hebert, na letra de Brasil Afora. Numa entrevista, Bi Ribeiro chegou a declarar que havia pensado noutro produtor para o CD, que trouxesse novidades à sonoridade do Paralamas. João Barone diz que Bi deve ter dito isso noutro contexto, pois, na verdade, sem Liminha, diz ele, o disco não teria ficado tão bom.
O retorno ao reggae pop que norteou o trabalho do Paralamas desde o início é visto pelo baterista da banda como uma maneira de trabalhar "randômica". "Nunca formatamos nada, deixamos as coisas se encontrar no plano musical. Música não é um quebra-cabeça para encaixar peças, é algo muito mais além", diz João Barone. Apesar dos arranjos e dos ritmos indicarem o contrário (pois refletem sim o Paralamas dos anos 80, em sua melhor fase, por sinal), ele também diz que a banda não gosta da nostalgia dos 80 e que estão cada vez mais longe desse negócio de revisitá-la. "Às vezes esquecemos que viemos desta década, por mais genial que ela tenha sido. Para quem acha que estamos parecidos com Os Paralamas, nós somos Os Paralamasmesmo, desculpem".