Pela legislação brasileira, grávidas vítimas de estupro podem fazer um aborto até o quinto mês de gestação. O procedimento também é autorizado pelo Ministério da Saúde e aconselhado por especialistas quando a gravidez põe em risco a vida da mãe, como é o caso da menina de nove anos de Alagoinha. No entanto, é necessário que a Justiça tome a decisão. O Ministério Público também precisa se pronunciar. A promotora Geane Bezerra, que acumula a promotoria de Pesqueira, só deve falar sobre o episódio segunda-feira. Mas toda e qualquer decisão deverá ser baseada em exames e perícias médicas. Mas esse caso começa a gerar polêmica. A ginecologista Vilma Guimarães, coordenadora do Centro de Atenção à Mulher do Imip e também presidente da Sociedade Pernambucana de Ginecologia e Obstetrícia adiantou ontem que não examinou a menina, "mas que em situações de gravidez de risco para mãe o melhor é interromper a gestação".
O ginecologista José Severiano Cavalcanti, que atendeu a menina na Casa de Saúde São José, em Pesqueira, antecipou que o aborto será necessário para não por em risco a vida da garota."Ela tem nove anos, mas sua idade cronológica não bate com sua estrutura física franzina, subnutrida", observou. Segundo Severiano, a menina mede apenas um metro e trinta de altura. "Ela não tem pélvis para suportar uma gestação de gêmeos. Não tem seios desenvolvidos e sequer pelos pubianos", argumentou.
O médico disse que se for preciso fará um laudo atestando que a criança não tem condições físicas de prosseguir com a gravidez e que indicaria o aborto para preservar a sua vida. "Eu não faria o aborto por causa dos meus princípios morais. Mas no Imip há equipes prontas para isso. E acredito ser necessário", observou.
Médicos consideram que a chegada mais cedo da menstruação é provavelmente desencadeada por um distúrbio hormonal. "Há estudos que mostram que alguns tumores cerebrais na hipófise antecipam a menstruação. Mas é preciso saber se há um componente genético, que também pode provocar uma puberdade precoce", esclareceu aginecologista Vilma Guimarães. A médica explicou que não é impossível uma criança gerar um bebê. "Até o terceiro mês de gestação, o ovário é quem dá suporte hormonal à gravidez. A partir desse período, já existe a formação da placenta, que assume a função de sustentação", completou.
O problema é que as mães jovens geralmente não têm estrutura física para suportar os nove meses. "O prejuízo maior é o psicológico, já que uma menina não possui amadurecimento mental para ter um filho", alegou. De acordo com a médica, uma criança não consegue levar a gravidez até o final e tem risco de desenvolver pré-eclâmpsia, com elevação da pressão arterial. Já a ginecologista Gláucia Fonseca lembrou que nesses casos a mãe pode ter anemia. "Assim, terão menor capacidade de resistir às infecções e de sobreviver a uma hemorragia e outras complicações do trabalho de parto", ponderou.