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Receita eclética no show da apoteose
Multidão ocupou o Marco Zero para acompanhar os shows que se encerraram com a Orquestra Multicultural
Tatiana Meira // Diario
tatianameira.pe@diariosassociados.com.br


Dos casais agarradinhos, abraçados debaixo das sombrinhas para tentar se proteger da chuva, enquanto se

Foto: Alexandre Gondim/DP/D. A Press.
embalavam ao som das canções românticas de Geraldo Azevedo, ao som furioso dos metais da Orquestra Multicultural, formada por 170 músicos e uma dezena de maestros, que saiu num arrastão pelas ruas já vazias do Recife Antigo, pois o relógio implacável estava prestes a marcar as 5h da manhã. Esta foi a receita eclética, embora extenuante do show da apoteose do carnaval do Recife, que abarrotou de gente a Praça do Marco Zero da cidade, e durou por toda uma madrugada, das 21h30 até o sol raiar.

Tudo bem que a Terça-Feira Gorda é o dia, ou melhor, a noite reservada para acabar na bagaceira, mas precisava a organização da festa (leia-se Prefeitura do Recife) atrasar tanto a última apresentação, a tal apoteose, o momento mais esperado da noite, com a participação de artistas locais e nacionais, como Coral Edgard Moraes, Lenine, Miúcha, Maria Rita (que esteve no Ibura na mesma noite)? O ápice da programação só começou às 2h45 da madrugada, embora os instrumentistas tivessem subido ao tablado 15 minutos antes, pois eram necessários ajustes no som e nos microfones. Sobrou para o mestre de cerimônias do espaço, o ator Cláudio Ferrário, que ficou tentando domar a ansiedade da platéia e acabou tomando uma sonora vaia.

Apesar do intervalo de mais de uma hora entre o show de Alceu Valença e o início da performance da Orquestra Multicultural ter minado a paciência de muitos foliões, quem aguentou até o fim presenciou um show inesquecível, pelo que trouxe de reverência a nossos maestros do frevo, do passado, do presente e do futuro. Subiram ao palco, para auxiliar Spok na regência, artistas do quilate de José Menezes, 83 anos, que mostrou Terceiro dia, lançada em 1957, cuja letra combina direitinho com a tristeza do final do carnaval, uma saudade que só termina no ano seguinte; Maestro Nunes, 77 anos, o rei dos frevos-abafo, com a instigante Cabelo de fogo; e outras lendas vivas do frevo pernambucano, como Clóvis Pereira, 77 anos, Duda, 74 anos e Guedes Peixoto. Spok, o maestro-coordenador daquele mundaréu de instrumentistas fardados em vermelho, também ajudou a manter a animação e introduzia o público restante a cada atração, com igual dose de entusiasmo. Homenageou e pediu salvas de palmas para seus mestres, a quem chamava de divisores de água da música pernambucana e também apontou para talentos que carregam em suas mãos a imensa responsabilidade de dar prosseguimento ao legado do frevo, como Fábio César, Lourdinha e Carmem Lúcia, esta última da Orquestra 100% Mulher.

As verdades, do tipo "doa a quem doer", couberam a Ademir Araújo, o Maestro Formiga, que questionou a necessidade de bandas de forró brega-eletrônico, como Saia Rodada e Calypso, participarem do nosso carnaval, diante de outros artistas ("Quem tem Spok, não precisa disso?", afirmou), também alfinetou Caetano Veloso, porque o baiano disse que a música americana era melhor do que a do Brasil ("vocêsconcordam com isso?", perguntou, indignado) e ao exótico Forró, maestro da Orquestra da Bomba do Hemetério, que chegou soltando um sonoro Bom Dia! e pediu segundos de silêncio aos músicos para que o povo aplaudisse a ele mesmo, pela perseverança de estarem ali, de pé, frevando, nas horas finais da maratona do reinado de Momo.

Outro ponto a ser repensado junto à organização da noite apoteótica foi a ordem em que as estrelas nacionais e os locais iam aparecendo no show. Elba Ramalho roubou a cena e fez o chão da praça balançar ao som de Frevo-Mulher, depois de ter sido acompanhada por Mônica Feijó e Carlos Fernando (compositor e um dos homenageados do carnaval 2009) em Pátria amada, de autoria de CF (o refrão diz "mistura pra ver como é; mistura pra ver se dá pé"). E logo em seguida veio o Maestro Duda, com um frevo instrumental para trompetes e orquetra, solado por um de seus filhos, Marquinhos, mas que não colocava as pessoas para dançar na intensidade da atração anterior. A sequência também não foi a mais acertada quando colocaram China, Canibal e um dos integrantes do Mombojó (mais Lula Queiroga, que já tinha dividido a cena com Lenine, mas não aguentou e voltou à tona) para cantar Frevo e ciranda, de Capiba ("Eu fui na praia do Janga, pra ver a ciranda..."), e foram seguidos pelo maestro Fábio César, bem menos conhecido.

Outra nota dissonante: Alceu Valença avisou que encerraria sua participação quando faltavam cinco minutos para 1h da manhã. Eis que aparece Carlos Fernando, que tinha sido chamado ao palco antes, mas não viera, porque estava "fazendo xixi". Alceu o homenageou improvisando versos e seguindo com a Embolada do tempo. Ameaçou cessar o show de novo, mas das coxias solicitaram que ele continuasse. E assim foi feito, com De janeiro a janeiro; um frevo-de-rua para a comunidade de Chão de Estrelas; Olinda Olinda; Madeira que cupim não rói; Voltei, Recife (encangado com Silvério Pessoa); Bicho Maluco Beleza, entre outras. Ele só foi "liberado" quase às 2h40.

Filmagens em Olinda

No meio da multidão do carnaval de Olinda, uma equipe de filmagens se espremia entre os foliões para rodar as imagens de Jardim Atlântico, primeiro longa-metragem do cineasta Jura Capela, que dirigiu o curta Copo de leite. As atrizes Hermila Guedes e Sylvia Prado estão no elenco. Pablo Baião, assistente de câmera em Cidade de Deus, Tropa de Elite e Diários de motocicleta, é o diretor de fotografia do filme, que é cheio de simbolismos (um dos personagens é um minotauro) e tem cenas em Fernando de Noronha. No meio da folia, também foi vista uma equipe de reportagem a serviço da rede de TV BBC, de Londres, além de documentaristas franceses que acompanhavam os passos do DJ Remy Kolpa Kopoul, atração da Tenda Eletrônica do Cais da Alfândega (Julio Cavani)

Projeto de Karina Buhr

Karina Buhr, que nunca havia mostrado seu show completo em Pernambuco, apresentou seu projeto solo aos conterrâneos na noite da terça, no Pátio de São Pedro. Depois de experiências marcantes nas bandas Eddie e Comadre Fulozinha e na peça teatral Os sertões, de José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, seu novo trabalho tem um estilo musical próprio, com uma banda formada em São Paulo, sem guitarras ou percussões rústicas, ao contrário do que se esperaria da cantora, que também é uma ótima percussionista (elas apenas toca uma placa de metal e chocalhos). As estruturas percursivas, mesmo assim, se manifestam na estrutura das composições e na bateria. Musicalmente, o som dela é essencialmente urbano, mas repleto de referências à natureza nas letras. O jeito como a artista canta e dança (sotaque tipicamente olindense-recifense) ainda enriquece o conjunto.(J.C.)

Rec Beat em São Paulo

Depois de tocarem no carnaval, Catarina Dee Jah e DJ Dolores já têm novos shows marcados para esta semana. Em São Paulo, de hoje a sábado, eles se apresentam em São Paulo, em uma edição especial do festival Rec Beat, no Sesc Pompéia. As bandas Original Hamster (Chile), Desorden Público (Venezuela) e Bomba Estéreo (Colômbia) também participam, além d a pernambucana Júlia Says. (J.C.)

Destaques do Rec Beat 2009

Em 2009, o Rec Beat, mesmo com pancadas fortes de chuva, teve uma de suas edições mais ricas, movimentadas e animadas de seus 15 anos de carnaval. Um exemplo significativo foi o show de João do Morro, na segunda-feira. O público era tão numeroso e empolgado que nem parecia ser a primeira atração da noite. Gogol Bordelo, convidado-surpresa que substituiu Afrika Bambaataa, também surpreendeu com a performance vulcânica do vocalista Eugene Hutz, no sábado (a noite da tempestade). As bandas latino-americanas agradaram e foram recebidas com uma festiva hospitalidade, mesmo sendo totalmente desconhecidas da platéia. No domingo, Eddie confirmou que é uma das maiores bandas de Pernambuco atualmente, com um show consagrador diante de uma multidão que dançava passos de frevo misturados com comportamento de rock. Dos mais variados estilos musicais ouvidos na programação como um todo, o ska se sobressaiu por causa da presença de pelo menos quatro bandas do gênero, marcadas pela ênfase nos naipes de metais e batidas aceleradas (uma curiosa coincidência com o frevo).(J.C.)


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Edição de quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009 
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