Marcelo e Jonathan são brasileiros. Um, estudante e ex-faxineiro de um restaurante na Irlanda. Outro, consultor de investimentos num banco na Suíça. Imigrantes europeus, têm muito em comum: transformaram-se em testemunhas do preconceito contra os que trocam de lar em busca de vida melhor do outro lado do mundo. Têm convicção de que a recessão econômica provocada pela crise pode criar uma tensão maior em torno da disputa por postos de trabalho. As experiências de Marcelo e Jonathan como observadores os fazem crer na potencialização do tratamento discriminatório contra estrangeiros. A chamada xenofobia, um tipo de aversão a pessoas e coisas estrangeiras.
O debate sobre a xenofobia veio à tona semana passada, com a notícia de um suposto atentado cometido contra a advogada pernambucana Paula Oliveira por intolerância racial. O caso está sendo investigado. A polícia suíça contesta o ataque e a motivação. À margem do desfecho, o tema ocupou as manchetes de jornais de todo o país. Fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revelar preocupação com o tratamento dado aos brasileiros imigrantes, deu espaço para debates sobre a ação de neonazistas e transformou a internet num canal de desabafos daqueles que sofrem duplamente: com a crise financeira e com o preconceito em decorrência da cor dos seus passaportes.
Marcelo Basile, de 24 anos, mora há oito meses na Irlanda - um dos três países mais atingidos pela depressão, com uma taxa recorde de 8% de desemprego em dezembro de 2008. O jovem está com passagem de volta para o Brasil marcada para a próxima quarta-feira. Estudava inglês e ganhava a vida num restaurante que fechou as portas. Na mala, trará boas histórias de farras, de novos amigos e algumas lembranças de como é ser estrangeiro e entrar numa loja para fazer compras. "Às vezes, sequer nos atendem". Há um mês, Marcelo procura emprego. Nos últimos meses, foi vítima de muita grosseria. "O tratamento conosco piorou após a crise. Eles estão apertando o cerco. Tem muita gente indo embora", conta. Antes raras, só semana passada foram três festas de despedida.
Da Suíça, Jonathan Spitz, com 28 anos e consultor e funcionário do Banck Coop AG, dá um depoimento que guarda semelhanças. "Na área bancária, muita gente está perdendo emprego e isso gera raiva entre os suíços. Os estrangeiros representam 25% do país". Morando na Suíça há 12 anos, Jonathan revela que o preconceito é velado. "Os policiais, por exemplo, são mais rígidos conosco. Mas ninguém fala para não criar problemas", diz. O consultor faz uma retrospectiva do nazismo e do xenofobismo na última década: "Quanto maior o número de estrangeiros na Suíça, mais se ouve falar de nazismo aqui. Aos poucos está crescendo muito", acredita.
O problema dos efeitos discriminatórios em massa causados pela crise econômica é que eles só se configurarão um fenômeno a médio ou longo prazo. Agora os gestores não se preocupam em tratar disso. Países como a França, Itália, Espanha, Estados Unidos estão mais apressados em criar medidas para controlar o fluxo dos forasteiros. Diz respeito ao próprio umbigo. Relatos de Marcelos e de Jonathans ficam em último plano.