Qual é o sentido de injetar dinheiro das prefeituras em shows pela cidade se não há segurança para chegar e falta transporte público para voltar? A questão, responsável por acalorados debates entre gestores com visão mais abrangente sobre a ausência de políticas públicas nas gestões culturais, é apenas uma pequena parte dos problemas que os novos secretários da Região Metropolitana do Recife têm pela frente.
O novo Secretário de Cultura do Recife, Renato L, uniu-se ao Gerente de Cultura de Jaboatão, Lula Cortês, e à Secretária do Patrimônio, Ciência, Cultura e Turismo de Olinda, Márcia Souto, para uma conversa com vários setores da cena cultural, durante o ciclo de debates promovido pelo Festival Grito Rock no auditório da Livraria Cultura. A mesa também contou com a presença do mediador Adriano Araújo, advogado especializado em questões de direito autoral.
Enquanto a maior parte das perguntas (e críticas) miraram a gestão anterior de João Roberto Peixe no Recife, coube à representante de Olinda, Márcia Souto, o tom mais gerencial e objetivo da conversa - com participação direta de um auditório lotado e ansioso por resoluções rápidas para problemas infindáveis. Secretária desde a gestão da prefeita Luciana Santos, Márcia pontuou as exigências do público com questionamentos sobre políticas públicas. "Não adianta pensar as [três] cidades em separado, porque a gente mora no Recife e trabalha em Olinda ou Jaboatão e vice-versa", sugeriu, sob concordância dos demais, insistindo na necessidade de novos discursos para o debate. "Temos que discutir as leis de incentivo e o excesso de atuação concentrada de algumas empresas privadas com dinheiro público. É uma discussão que na prática ainda não existe", exemplificou.
Em uníssono, os três secretários concordaram que debates sobre cachê e quantidade de shows são variáveis supérfluas diante de uma longa batalha para encontrar novos rumos da política cultural. Ao mesmo tempo, sem hesitar em momento algum na ladainha da "continuidade" do governo João Paulo no Recife, Renato L repetiu o mantra de continuar a "boa gestão" de Peixe, mas sem se fechar a novas idéias.
Mais incisivo dos três, o músico e artista plástico (e agora gestor) Lula Cortês não poupou críticas à administração anterior e a certos setores de artistas que só procuram a prefeitura para benefício próprio, como se fosse obrigação do poder público suprir o custo de shows. "E o pior é que, se você não banca isso, vão dizer que você não está trabalhando...", ironizou. Cortês garantiu estar aberto a receber projetos cujo benefício seja coletivo, mas não esqueceu de deixar claro: "Em Jaboatão, não existe verba para praticamente nada, não dá para continuar a ser paternalista como se faz até hoje".
Ao frisar o "sucesso da política cultural dos últimos oito anos", Renato L teve dificuldade para sair da saia justa imposta por Roger de Renor, sempre no seu papel de agitador "cultural" e ao arrancar risos da platéia, ao questionar os quase 50 anos de tramitação daRádio Frei Caneca. O secretário garantiu "não ser ingênuo, ciente de que existe pressão da grande mídia e dificuldades burocráticas" para que o projeto de uma rádio pública não vá adiante, mas garante ser prioridade para a prefeitura de João da Costa. O projeto da Frei Caneca, contudo, não é mais responsabilidade da pasta de cultura, passando para a Secretaria de Gestão Estratégica e Comunicação, cuja responsável é Lygia Falcão.