O altruísmo é uma dessas virtudes que enchem o ânimo de positivismo na esperança de seres humanos melhores, mais dedicados e generosos, uns aos outros.
 Biografia de dom Helder, escrita por Piletti e Praxedes, será lançada no IMC. Foto: Carlos Teixeira/DP/D.A Press |
O que está por trás das práticas altruístas, antônimas dos narcisismos pós-modernos, senão a própria capacidade de auto-realização, mesmo que esse êxito pessoal seja na entrega a um outro? A vaidade, nesse caso, não lhes escapa. É com certa vaidade que a biografia Dom Helder Camara - O profeta da paz, dos historiadores Nelson Piletti e Walter Praxedes, inicia o relato de vida de uma das personalidades mais controversas da história brasileira. Com lançamento marcado para esta noite, às 19h, no Instituto Maximiano Campos (Rua do Chacon, 335, Casa Forte), a obra traz como abertura a indicação de Dom Helder, cujo centenário de nascimento se comemora no próximo dia 07, para o Prêmio Nobel da Paz de 1971.
Favorito ao prêmio, Dom Helder acordou na madrugada do dia 18 de outubro de 1971 para mais uma vigília, um ritual de oração e reflexão repetido desde os 22 anos, e decidiu "brincar de faz-de-conta". "Faz de conta que a altas horas do dia 20 do corrente ou da madrugada, 21, as agências telegráficas me despertem com a notícia do prêmio". E segue: "prefiro, mil vezes, deixar tudo para o encontro pessoal, face a face com o pai", imagina o sacerdote que no exercício lúdico lembra da frustração dos amigos, caso não seja condecorado com a ordem. E não foi. Um dos arqui-inimigos do Regime Militar, Dom Helder perdeu o posto para o professor norte-americano Normam Bourlag, especialista em fisiologias das plantas, que realizavas pesquisas para o Instituto Rockefeller do México. Notícias dos bastidores deram conta de que a derrota foi pressão da ditadura militar. Por mais três vezes, o nome de Dom Helder foi indicado, sem sucesso, ao Nobel.
Polêmico por sua retórica e ações humanitárias, o sacerdote esteve ligado a um dos momentos mais tensos da cultura brasileira, quando, na década de 60, apoiou artistas, intelectuais e militantes políticos contra o regime militar. Um dos nomes mais fortes da identidade pernambucana, Gilberto Freyre, o comparou ao nazista Goebbels, por fazer propaganda política. Ao sociólogo, Dom Helder escreveu um texto que se transformaria num manifesto de sua vida, com seus pensamentos e ideais discutidos. Dom Hélder era visto, aliás, por muitos como mais político do que sacerdote. Era chamado de comunista, demagogo, rebelde. Um homem que enfrentou o fogo cruzado não só da política nacional nos 60 mas da sua própria disposição em enfrentar as autoridades brasileiras. Nunca deixou de ser manchete. Não costumava, porém, ler as críticas a seu respeito, para não cair na autocomiseração ou vaidade.