Festa em um lado e sinal de crise em outro. A população fez a tarefa de casa e aumentou a quantidade de lixo
 Papel é o campeão no estoque das cooperativas, pois tem alta rotatividade, mas o seu preço já caiu 50%. Foto: Juliana Leitão/DP/D.A Press |
encaminhada para a coleta seletiva. O problema é que o material tem encontrado obstáculos para chegar a seu destino e manter o ciclo. Parte desses produtos recicláveis está estocada nos galpões de cooperativas e associações de catadores. O restante, já que não encontra um "dono", poderá acabar em rios, mares e matas. É que as empresas recicladoras não acompanharam o ritmo da oferta nem do discurso de responsabilidade socioambiental. Além disso, sentem agora os efeitos da crise internacional. Uma consequência que ameaça o meio ambiente e a vida dos cerca de 8 mil catadores que vivem em Pernambuco e sobrevivem do lixo.
O presidente da Associação Pró-Recife e coordenador do Movimento Nacional de Catadores, José Cardoso, ressaltou que as empresas conseguiam absorver o material até o fim dos anos 1990. Nessa época, o problema era separar oplástico, o vidro, o papel e o metal já utilizados do lixo comum, o que reduzia a qualidade e a quantidade do que poderia ser entregue como matéria-prima às empresas. "Agora mais pessoas estão separando o lixo e doando de maneira correta. O que deve ser comemorado, mas não surgiram novas empresas. O lixo está parado", disse.
Assim como o levantamento da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) divulgado ontem pelo Diario, que revelou um crescimento na participação da coleta seletiva, os integrantes do Movimento Trapeiros de Emaús constatam o maior envolvimento da sociedade. "Houve um crescimento muito significativo. Doação não é mais problema, a dificuldade está em coletar e ter a quem repassar", destacou o coordenador do movimento, Luís Tenderini. Os dados da Emlurb indicaram que 30% da população de 10 bairros do Recife fazem coleta seletiva. Alguns, como a Madalena e a Torre, alcançam até 40% de coleta.
Mas, também como os catadores da Pró-Recife, o material começou a se acumular nos galpões pela falta de compradores. "Trabalhamos com as mesmas empresas sempre, mas agora nossa oferta aumentou e elas não têm tido crescimento", contou. O papel é o campeão no estoque e seu preço já caiu 50%. O coordenador da Pró-Recife destaca que a situação é tão grave que tem gente oferecendo R$ 0,07 pelo quilo de papelão, que já valia apenas algo entre R$ 0,20 e R$ 0,25. "O papel é o carro-chefe das cooperativas pois tem uma rotatividade muito alta. É mais fácil de encontrar nas ruas e de repassar. Mas agora não. Com a crise, as empresas estão sem compradores e o estoque não roda", concluiu Cardoso.
O assessor da diretoria de uma das maiores recicladoras de papel do estado (Ondunorte), Augusto Oliveira, destacou que a linha dependente de embalagens e caixas como matéria-prima está ameaçada.