Na madrugada do sábado de Zé Pereira, os moradores de Nova Goiana, Mata Norte do estado, vivenciam um ritual produzido por diferentes grupos de caboclinho, ou cabocolinho, como também são chamados. Os caboclos (muitos verdadeiros descendentes de índios) saem às ruas tocando seus instrumentos (gaita, tarol, caracaxás) e tangendo bodes.
 Foto: Fred Jordao/Divulgação |
Depois, seguem para o terreiro de Jurema vinculado à sua agremiação. Este tipo de culto, no interior, ainda está ligado às origens do caboclinho, ou pelo menos é admitido por eles. Homens, mulheres e crianças participam. Os iniciados recebem as entidades da Jurema, quase todos bebem seu vinho. Terminam com festa na sede do grupo. Estão "calçados" para o carnaval. Protegidos. O ritual é chamado "caçada do bode", feito ao mesmo tempo pelos grupos, cada um em uma parte do bairro.
 Juraci, do Canindé do Recife, também se inscreveu no edital do Patrimônio Vivo, mas não foi eleita; aprovou projeto no Funcultura. Foto: Alexandre Gondim/DP/D.A Pres |
Apesar de suas origens estarem ligadas, segundo estudiosos, aos autos jesuíticos, muito pouco se sabe sobre esta tradição que toma as ruas do centro do Recife durante o carnaval. Nos últimos anos, no entanto, está sendo percebida uma espécie de espetacularização do gênero. Um movimento que também causa divergências de bastidores. As vantagens para o meio podem ser traduzidas em pesquisas inéditas sobre o tema, títulos, publicações e prêmios em editais. Assim como aconteceu com o maracatu rural, talvez o caboclinho esteja passando por um processo irreversível de visibilidade. A notícia mais festejada do mês, neste sentido, foi o título de Patrimônio Vivo dado à Tribo Sete Flechas do Recife, fundada em 1971 e comandada desde então pelo mestre José Alfaiate, de Água Fria.
"
Caboclo toda vida guerreou. Hoje é menos, mas existem os mais chegados"
Zé Alfaiate - mestre de caboclinho
O título dado ao Sete Flechas provocou uma insatisfação no meio dos caboclinhos. Falatórios que a reportagem ouviu durante a apuração e que são explicitadas sobretudo nos depoimentos de Juraci de Canindé, a presidente da agremiação de mesmo nome. Canindé do Recife é a agremiação mais antiga em atividade do estado, com 112 anos. Também se inscreveu no edital do Patrimônio Vivo, mas não foi eleita. Por outro lado (o que não deixa de ser uma compensação) teve sua força reconhecida por um dos editais mais concorridos do estado. Passou no Funcultura um projeto de Canindé para realizar oficinas culturais em sua sede, na Bomba do Hemetério. O objetivo é formar futuros brincantes. O curso terá a duração de quatro meses. Será ministrado por Juraci, que repassará conhecimentos sobre dança, toques, vestimenta do caboclinho e fundamentos religiosos.
Nascida, criada e ungida dentro do Canindé, Juraci de Canindé afirma que seu grupo "sempre foi muito injustiçado", desde os tempos do seu pai. De temperamento forte, Severino Batista da Silva, o mestre Bibiano, passou a tomar conta do Canindé depois que o irmão, Manoel Rufino, afastou-se do grupo, por desentendimento envolvendo negócios da família. Rufino, posteriormente, foi um dos mestres de Zé Alfaiate, líder do Sete Flechas. Daí a crença, por parte de Juraci, de que o Canindé, além de ser "o mais antigo", é um dos responsáveis pelos conhecimentos do rival.
 Tribo Sete Flechas do Recife, do mestre José Alfaiate, recebeu o título de Patrimônio Vivo. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
"Antes a briga era corpo-a-corpo, agora é uma briga suja, é isso que eu não admito, eu sou de bater de frente, mesmo sendo mulher", diz Juraci, que herdou de Bibiano não só o Canindé, mas sobretudo o temperamento. Sem emprego fixo ou aposentadoria, sua maior decepção é ainda não ter visto o grupo ser reconhecido oficialmente. "Sempre acho que Canindé merece o melhor, por que é a tribo mais antiga de Pernambuco, mas nada tira a nossa vida. Cada pedra no caminho, Canindé segue em frente", diz, ainda ressentida por não ter recebido o Prêmio do Patrimônio Vivo.
Zé Alfaiate, um dos maiores mestres e sabedores da cultura do caboclinho, não é de criar problema. Ele, no entanto, reconhece o perfil briguento da sua cultura. "Caboclo toda vida guerreou. Hoje é menos, mas existem os mais chegados. Ele também tem suas broncas. Por exemplo, com o julgamento do concurso de caboclinhos no carnaval. "Às vezes chegamos bonito e levamos um lugar que não merecia, por causa de uma comissão que não sabejulgar como deve ser. Eu vou criar problema? Fico calado, até por que consigo minhas apresentações dentro e fora do Recife", coloca.
São muitas histórias, que só a partir de agora poderão ser mais conhecidas. Se, até o ano passado, o caboclinho não contava com uma literatura substancial, a dissertação do etnomusicólogo Climério Oliveira dos Santos veio preencher uma lacuna. Antes de virar publicação, a pesquisa já embasou a proposta de candidatura do caboclinho no Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, do Iphan, já foi efetivada pelo Governo do Estado. Climério também espera sair da gráfica o livro Batuque Book Cabocolinho, que servirá para divulgar ainda mais os gêneros desconhecidos desta manifestação carregada de simbologias.