Quando se fala em mau humor no Nordeste, é impossível não lembrar de "Seu Lunga", um dono de ferrovelho folclórico de Juazeiro do Norte, Ceará, conhecido por sua ignorância. Os "foras" do cearense se tornaram lendas populares, conhecidas de geração em geração por suas frases de efeito. Para quem ainda não conhece, um dos mais famosos é dito quando ele está passeando na rua e lhe perguntam: "está passeando com o cachorro, seu Lunga?" "Não, é com meu passarinho", rebate, puxando o animal pela coleira. Mas não é sempre que o mal-humorado provoca graça. O mau humor é uma doença crônica. Chama-se distimia e deixa qualquer pessoa chata, intolerante aos ambientes e aos outros. O ranzinza vive em guerra consigo e com os demais, perde qualidade de vida e pode ter depressão.
A boa notícia é que existem estudos em andamento no Brasil para tratar o transtorno do humor como se deve, segundo o psiquiatra Antônio Egídio Nardi autor do livro Do mau humor ao mal do humor. As causas da doença ainda são desconhecidas, mas ela pode ser genética e atinge cerca de 3% da população mundial e brasileira, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).
O médico diz que a proporção é duas mulheres para um homem, em virtude das mudanças acentuadas pelos hormônios femininos.
Doutor Nardi estuda a distimia há mais de 15 anos e garante: ficar de cara feia o tempo inteiro não é um traço da personalidade, como a maioria pensa. Nem tão pouco é uma depressão leve, como defende outra linha da psiquiatria. É uma disfunção de substâncias do prazer, como serotonina e noradrenalina, e deve ser tratada com antidepressivos e psicoterapia, com direito à cura.
O médico alerta, no entanto, existir diferenças entre ficar mal humorado e viver de testa franzida o tempo inteiro. Irritar-se no trânsito ou com uma determinada situação no trabalho não é motivo para achar que sofre da "síndrome de Seu Lunga". Mas se a chatice é diária, se os amigos cobram mudanças e se nem mesmo você se aguenta,é hora de procurar ajuda. Segundo o psiquiatra, o transtorno causa problemas de relacionamento e pode excluir a vítima do convívio social. De acordo com ele, que coordena um estudo sobre o assunto no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o mal-humorado precisa passar por uma longa entrevista para receber o tratamento adequado.
Botija - O mais curioso, segundo o psiquiatra, é que o distímico não percebe que esconde um tesouro e pode fazer as pessoas se sentirem melhor ao seu lado. Exatamente o que acontece com o segurança A.F, 41 anos. Há um ano, ele ganhou até o apelido de "brabinho" no ambiente de trabalho.
É conhecido pela cara amarrada, um mau humor diário. Porém, ao contrário do que se pensa, diverte-se com isso. "Eu estou sempre reclamando de alguma coisa em casa, mas acho que as pessoas se acostumaram comigo desse jeito, sempre chateado, de cara fechada", opina.
O segurança lembra uma situação chata que provocou no passado. "Minha ex-mulher inventou uma festasurpresa para mim. Quando cheguei lá, detestei, porque sou do tipo que gosta de saber de tudo. Daí, reclamei e fui embora", lembrou, admitindo o constrangimento provocado, mas também a falta de vontade de mudar. E admitindo que é assim mesmo, mal-humorado.
"Sempre digo: para conviver comigo, tem que gostar muito de mim. Ou as pessoas gostam ou me detestam. Mas acho que isso ajuda no meu trabalho. Não dá para ficar rindo o tempo inteiro".
Saiba mais
Traços que o mal-humorado pode apresentar
l Baixa auto-estima
l Dedicação excessiva às atividades que realiza
l Cobrança ao cumprimento de regras
l Perfeccionismo
l Autocrítica ferrenha
l Pessimismo
l Retração social
O que sente o mal-humorado
l Sentimentos de intolerância com o ambiente e com as pessoas
l Falta de prazer prolongada por anos
l Irritação ou raiva por qualquer motivo, até mesmo em boas situações
l Insatisfação constante
O que o mau humor pode provocar
l Solidão
l Perda de qualidade de vida
l Problemas com amigos, familiares e cônjuge
l Problemas conjugais
l Perda de oportunidades de trabalho
l Depressão
l Dependência química de drogas ou álcool
Como se curar
l O tratamento é feito com medicação e psicoterapia e pode durar até dois anos. Para os que não podem pagar o tratamento, é possível encontrar ajuda nos centros de pesquisa das universidades por preços mais acessíveis ou de forma gratuita. Existem livros que podem auxiliar como "Terapia do Riso - A cura pela alegria", de Eduardo Lambert. E o livro "Do mau humor ao mal do humor", de Antônio Egídio Nardi.
Fonte: Antônio Egídio Nardi, doutor em psiquiatria, especialista em distimia.