Ela jura que leva pouca bagagem. Só o necessário, o mínimo. Para Danuza Leão, isso significa três malas grandes
 Aos 75 anos, Danuza Leão conta que abandonou os saltos altos, mas não abre mão dos jeans e das cores neutras: receita de elegância., Foto: Júlia Moraes/Divulgação |
e cheias. Antes, circulava pelos aeroportos e hotéis com um conjunto da grife francesa Louis Vuitton. Hoje, o trio foi aposentado pela colunista de 75 anos. "Já não dá para usar a marca", descarta, no recém-lançado livro Fazendo as malas. "O excesso de divulgação fez com que elas se popularizassem mais do que é permitido suportar. E, em geral, pertencem a pessoas de gosto mais do que duvidoso". Dramática, a escritora define a situação como "catastrófica" e acrescenta: "Mas aconteceu o milagre: descobri umas malas sensacionais, alemãs, de alumínio e com quatro rodinhas, levíssimas".
Que ótimo, porque o conteúdo delas não parece ser problema. Para simplificá-lo, ela diz que prefere viajar no verão ou no inverno, porque, assim, fica mais fácil saber o que levar. No inverno, por exemplo, viaja com dois jeans, três camisas, dois suéteres, duas botas "e vários, vários casacos de pele. As autorizadas, claro". Pena que a temporada na Europa para produzir o livro tenha sido em abril, mês de meia-estação.
E lá vai Danuza Leão por Sevilha, Lisboa, Paris e Roma, passar uma semana em cada cidade, com a missão de, na volta, publicar crônicas de viagem. A edição da Companhia das Letras, que sai com tiragem de 15 mil exemplares, carrega um aparato extra na ficha técnica, além de revisores e ilustradores de sempre: são pessoas responsáveis pela preparação de texto, pela checagem de nomes próprios e pelos endereços. O cuidado ignora uma falha no final do livro: cada cidade tem lista de hotéis, restaurantes e lojas. Menos Lisboa, que ficou sem a relação das últimas. Foram esquecidas ou substituídas pelo endereço dos cinemas do Corte Inglês, onde, na sala vip, a cadeira é semelhante à da primeira classe de um avião e o espectador pode tomar champanhe, enquanto assiste ao filme.
Em Paris, a escritora teve tempo de refletir sobre o que faz uma mulher ser elegante: "Elas se vestem sempre de maneira discreta e é raro usarem cores fortes", concluiu, e depois emendou: "Mulheres elegantes nunca usam salto muito alto". Mas, no universo feminino local, falta uma profissional bastante comum no Brasil: a manicure. "A coisa mais difícil é encontrar uma manicure. E, quando você encontra uma, vai pagar no mínimo 30 euros", afirma Danuza.
Ela convida o turista a ser "bem brega" e jantar no restaurante da Torre Eiffel. "Enquanto você toma um copo de champanhe bem fresco, a noite vai chegando e imediatamente as luzes de Paris se acendem, de uma vez só. É um espetáculo de cortar o coração", exagera. Para petiscos rápidos, no bistrô Les Éditeurs, ela r e c o m e n d a uma sobremesa quente de chocolate, que vem acompanhada de um sorvete de rosas, enquanto na casa de chá Angelina, fundada em 1903, pode- se tomar o melhor chocolate do mundo, segundo a colunista.
Para as mulheres carentes ou com a auto-estima em baixa, a autora indica: "Roma é um bálsamo". E justifica: "Os italianos dizem galanteios, se jogam aos pés, prometem amor eterno, casamento e felicidade. É que eles vivem uma vida duríssima com as italianas, que os tratam no chicote, e, quando vêem uma estrangeira, ficam loucos". Já as romanas são descritas como clássicas: costumam se vestir de cinza, bege, branco e preto e usam jóias "poderosíssimas".
Serviço
Fazendo as malas, de Danuza Leão
Editora: Companhia das Letras
Preço médio: R$ 35
EM SEVILHA
- As lojas fecham às 13h e as pessoas vão para casa almoçar e dormir. O comércio volta a abrir às 17h.
- A partir das 11h, os lugares estão cheios, com as pessoas bebendo, comendo e fumando (muito), e o almoço nunca é antes das 15h, quando os restaurantes lotam.
- Os ciganos são parte integrante da população de Sevilha.
- Pressa e estresse são palavras ignoradas na cidade.
- Sevilha é quase um laranjal. E mesmo os turistas são incapazes de arrancar uma laranja das árvores.
EM LISBOA
- A maioria dos motoristas, dos garçons e das pessoas que trabalham em lojas é formada de brasileiros.
- Em qualquer lugar do mundo, se pede um copo de vinho, um copo de champanhe. Só no Brasil, existe o hábito de pedir uma taça de vinho ou uma tacinha.
- Os pastéis de Belém são uma instituição em Lisboa. A confeitaria existe desde 1837 e vende média de 14 mil pastéis por dia.
- Em Portugal, um brasileiro perguntou ao porteiro do hotel onde era o metrô e ele respondeu: "Ora, é abaixo".
EM PARIS
- Do aeroporto ao hotel, o motorista de táxi não fala e a música que se escuta, bem baixinho, no rádio do carro, é clássica.
- As cores bege, cinza e preto imperam em Paris.
- Um cinto Chanel custa 1.250 euros. No bar do hotel George V, os garçons que ficam atrás do balcão usam colete de brocado e os que servem, terno e gravata.
- A brasserie Lipp é a mais tradicional de Paris. Existe desde 1880. Até hoje, nada foi mudado, nem as cadeiras, nem as mesas.
EM ROMA
- Na maioria dos lugares, não há ar-condicionado, nem mesmo em lojas e restaurantes de luxo.
- O trânsito de Roma é caótico. Como as ruas são muito estreitas, os carros quase se esbarram e as Vespas trafegam também na contramão.
- Fica-se íntimo de um romano em cinco minutos.
- O sinal de linha dos telefones é bip-bip-bip, que no resto do mundo é entendido como linha ocupada.
- Lá não existem shoppings e os antigos conventos estão todos virando hotéis.