O slogan da Prefeitura no segundo mandato do ex-prefeito João Paulo (PT) - "A grande obra é cuidar das pessoas" -, apesar do traço de marketing, reflete a opção de seu governo (2001 - 2008). Foi uma gestão que priorizou políticas públicas sociais e investimentos na área. O que não quer dizer que o Recife deixou de ser um dos centros urbanos mais pobres do país. As favelas cobrem mais de 50% do território da cidade e abrigam 30% da população. E boa parte dos recifenses ainda vive abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mas muitos avanços foram registrados.
A redução da mortalidade infantil, as políticas de habitação e de saneamento e a ação preventiva nos morros da cidade, com redução do número de mortes no inverno, são exemplos importantes da administração João Paulo. "A avaliação de um gestor não pode ser maniqueísta. Todos eles, independentemente da formação ideológica e partidária, têm lados positivo e negativo. Do ponto de vista político, a gestão deJoão Paulo rompeu um paradigma: pela primeira vez, um ex-operário chegou ao comando da cidade. Com esse perfil e com as diretrizes do PT, o modelo de gestão comandado por ele causou um impacto muito grande", analisa o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco.
Segundo Túlio, o programa Orçamento Participativo, mesmo com as críticas pontuais que recebeu, terá que ser incorporado a qualquer administração da cidade. As intervenções urbanas e as políticas sociais são marcos importantes do governo que se encerrou ontem. A opinião é compartilhada pelo também cientista político Adriano Oliveira, do Instituto Maurício de Nassau. "A gestão tem três características principais: a prioridade no campo social, com investimentos maciços no subúrbio; as grandes intervenções urbanas, especialmente no trânsito; e as polêmicas com o Ministério Público", afirma. Entre elas, o questionamento das dispensas de licitação de vários contratos, também muito criticadas pela oposição, e o show da dupla Sandy e Júnior em 2004.
João Paulo, de fato, não fugiu de polêmicas durante os dois mandatos. É possível dizer que ele até gosta delas. As obras e ações da Prefeitura de maior visibilidade nesses oito anos causaram muito burburinho e o ex-prefeito não fugiu do embate. É o caso da inversão do trânsito em Boa Viagem, da retirada das palafitas de Brasília Teimosa e do disciplinamento do transporte alternativo, na primeira gestão, e da requalificação da avenida Conde da Boa Vista, da construção do túnel da Via Mangue e do parque Dona Lindu, mais recentemente.
"O segundo mandato foi menos impactante do que o primeiro, porque todos nós estamos mais habituados com a gestão e porque as obras foram menos polêmicas", comenta Túlio Velho Barreto. Além disso, o cientista político destaca outra diferença entre os dois governos de João Paulo. "O primeiro foi mais estreito do ponto de vista da participação de partidos políticos. Agora, a administração incorporou mais legendas, inclusive na perspectiva da sucessão. A eleição de Joãoda Costa foi muito diferente da de João Paulo em 2000". (Andrea Pinheiro)