Confira a íntegra dos discursos do prefeito João da Costa - na Prefeitura do Recife: Depois de a gente ouvir João Paulo e de a gente conviver nesses oito anos de governo, com os secretários, quem acompanhou todo o trabalho deve imaginar o tamanho do desafio que tenho pela frente. Não só por suceder uma gestão vitoriosa, exitosa, mas pela dimensão do que representa o Recife, porque às vezes no cotidiano da gestão, da luta, da vida, a gente perde um pouco a capacidade de buscar as referências do que essa cidade já representou na construção da luta do povo brasileiro.
Eu lendo, esta semana, um pouco sobre a revolução republicana de 1817, a gente vê as dimensões política, social, histórica que a cidade do Recife tem para a construção da nação brasileira, que depois se materializou nas tentativas da Confederação do Equador, na Revolução Praieira, na luta dos comunistas da década de 30 no século passado, na luta de milhares de militantes durante a ditadura, que lutaram muito para manter firme a luta libertária que sempre caracterizou o povo da cidade do Recife, que mesmo diante de tantas dificuldades, de tanta opressão, de tanta miséria, de tanta exclusão, essa cidade, desde a sua formação até hoje, é uma verdadeira acolhedora de todos aqueles que saíram de vários lugares do mundo. Felizmente, a gente tem representantes da colônia de judeus em nosso secretariado, mas só para dar um exemplo de como essa cidade é cosmopolita, de como recebeu todos. A gente olhando a nossa bancada de secretários, vê quantos matutos têm aqui, que chegaram para construir a sua vida e encontrou umacidade que o acolheu, porque essa é a vocação da cidade.
É uma cidade libertária, que acolhe um povo e, diante das suas dificuldades imensas, construiu uma verdadeira nação, construiu valores culturais, que afirmam uma multiculturalidade, que é a identidade do povo brasileiro. Só uma cidade com essas características seria possível a gente constituir, ao longo da sua história uma frente, como a Frente do Recife.
Estava me lembrando aqui, Eduardo, de 2000, quando João Paulo tomou posse. Na verdade, não houve bem transmissão, o palanque quase cai aqui de tanta gente em cima. Eu não sei se você lembra, mas a gente se encontrou lá embaixo, no estacionamento e Eduardo Campos disse: 'eu estou meio perdido aqui, João, como é que faz para chegar na solenidade?'. E oito anos depois, a gente está aqui como legítimos representantes da continuidade de um projeto político da Frente do Recife, que começou com Arraes, com Pelópidas e com milhares de companheiros, dando continuidade depois de oito anos de uma gestão exitosa, caracterizado agora por uma nova etapa de um projeto político. Agora, comandado por um prefeito de origem na classe trabalhadora, nos movimentos populares, um legítimo representante daqueles milhares de recifenses, que Paulo Freire disse em seu poema, não tinham o direito de ser. E hoje, mas do que o direito de ser, João Paulo provou que a gente é capaz de fazer. De ser e fazer em benefício da maioria do nosso povo, aprendendo e bebendo nas lições de muitos, mas referenciados nas lutas históricas e da Frente do Recife. E poder, oito anos depois, estar aqui não eu e Eduardo perdidos procurando saber onde João Paulo ia tomar posse, mas a gente subindo as escadas da Prefeitura, ele como governador do estado de Pernambuco e eu como prefeito da cidade do Recife.
Isso só foi possível por vários motivos, porque a gente teve uma gestão exitosa, comandada de forma correta, competente do ponto de vista político pelo prefeito João Paulo, que soube comandar uma equipe, soube trabalhar, mais do que isso, soube construir um projeto político. Porque em 2002, a gente conseguiu eleger, pela primeira vez na história do Brasil, um presidente comprometido não só com a democracia, mas com as transformações que beneficiem a maioria do povo brasileiro, que foi o presidente Lula. E nós conseguimos eleger em 2006 e retomar, no governo do estado de Pernambuco, um projeto comprometido com a democracia, com a participação popular e com a inclusão de milhares de pernambucanos, através do governador Eduardo Campos. E através da luta, não só competente de todo uma equipe de secretariado, mas de milhares de anônimos da cidade do Recife que compreenderam o nosso projeto, porque foram beneficiados pela ação concreta das políticas públicas do governo do prefeito João Paulo. E que tomaram para sia defesa desse projeto, porque passaram a ter canais de participação e de construção.
O prefeito João Paulo sempre dizia para a gente que o principal compromisso de uma gestão de esquerda não eram as obras, nem os serviços públicos e o são, mas além disso, a construção de uma consciência crítica na sociedade, era a evolução política do nosso povo para que ele tomasse para si a defesa do nosso projeto. E quando a gente encontra dezenas, centenas de pessoas que nos dizem que começaram a acreditar na política, que hoje são cidadãos, que acreditam nesse projeto, que através dessa ação transformaram as suas vidas, agente sabe que nesses oito anos a gente cumpriu a nossa missão, o nosso dever. Mas como a gente não está contente só com o que a gente produziu, ainda tem muito a se fazer. O Recife ainda é marcado por profundas diferenças.
Percorremos um caminho fundamental, porque estruturou bases para que o projeto político pudesse continuar com sucesso, mas a gente sabe do tamanho do nosso desafio. De poder beber nos marcos históricos de Pelópidas e de Arraes, que aliaram a construção de gestões modernas, que foram buscar no planejamento urbano a modernização do Recife, a sua incorporação à dinâmica econômica do país, mas aliaram a isso a um compromisso irrevogável com os setores populares da nossa cidade, com os trabalhadores para desenvolver política que melhorasse a qualidade de vida da maioria mais pobre da nossa cidade. Foi assim com as diversas ações, que buscaram na cultura a afirmação de identidade da nossa cidade como um valor fundamental de governo, com o movimento de cultura popular, que nós resgatamos agora.
E foi bebendo nessas fontes que a gente construiu nesses oito anos, mais do que isso, o desafio de buscar superar os êxitos que tivemos em oito anos em quatro. Sabemos que não é uma tarefa fácil, porque daqui a dois anos, vamos ter eleições para presidente, para governador. E os setores conservadores da nossa cidade, órfãos de um projeto ideológico, órfãos de um projeto político para esse país, sem formular um projeto para a cidade ou para o estado, vão buscar uma política, muitas vezes, rebaixada o exercício legítimo e democrático da oposição.
Nós queremos construir uma relação com todos da cidade do Recife, não só aqueles que fazem parte ou fizeram parte da Frente do Recife que nos elegeu prefeito e vice-prefeito. Nós queremos trabalhar com toda a sociedade, como assim o fizemos nos últimos oito anos, conversando com todos, governado para a cidade como um todo, mas deixando claro qual é o nosso projeto, qual a nossa prioridade. São aquelas crianças que não têm o que vestir, aquelas que não têm o que comer, aquelas que moravam em palafitas dentro da lama, daqueles, como muitas mães, que nós encontramos em diversas comunidades, diversos bairros, desesperadas com ausência de emprego para seus filhos, olhando para o futuro sem esperanças, sem perspectivas, porque viam apenas a possibilidade de visitar seu filho ou no presídio ou no cemitério. Muitos desses recifenses recuperaram a esperança e esse é isso que a gente não vai abrir mão nunca, porque faz parte da nossa formação, da nossa identidade, da nossa luta que nos trouxe até aqui. Mas nós sabemosque até para isso precisamos construir uma cidade moderna, de serviços, que gere emprego, âncora do crescimento e da reestruturação produtiva de Pernambuco tão bem comandada pelo governador Eduardo Campos e com fundamental apoio estratégico e político do presidente Lula, que faz com seu mandato uma
oportunidade de resgatar o papel histórico, econômico e social de Pernambuco diante da Federação. E a nossa tarefa é saber dar continuidade aquilo que nós construímos para poder aprofundar esse lugar que Recife historicamente sempre teve a partir da tradição de luta do seu povo, que sempre foi irredutível na busca pela liberdade, pelo desejo de expressão e de constituir aqui nesse território uma cidade de homens e mulheres livres, que possam construir uma cidade mais justa. E é, a partir desse ideário, que eu e o companheiro Milton Coelho, vamos e temos certeza que vamos contar com o apoio, a parceria, não só nos momentos difíceis, mas nos bons também, do governador Eduardo Campos, do presidente Lula.
Eu quero dizer a meu amigo, companheiro, prefeito João Paulo, me permita continuar chamando assim. A minha formação como militante passa pela convivência de mais de 20 anos com esse companheiro. Com ele, eu aprendi quase tudo, porque quero aprender muito mais. Mas aprendi valores fundamentais de pensar política com estratégia, de manter o compromisso inabalável na luta dos trabalhadores e oprimidos, que a gente tem que saber aproveitar as oportunidades que a nossa luta nos proporcionou. Nós somos lutadores privilegiados, não só porque a gente pode beber na história e nos ensinamentos de homens, como Pelópidas, Arraes, Luciano e milhares de outros, que, me permitam, não lembrar os nomes agora, mas porque a gente tem a condição de poder fazer, de organizar, de ocupar uma parcela de poder do aparelho de estado para transformar situações seculares que colocaram a maioria do nosso povo na opressão, na miséria, na exclusão de ser cidadão sem poder ser.
É por isso que eu quero afirmar meu compromisso com essa luta, porque aprendi com o prefeito João Paulo, com diversos outros companheiros, lendo a história de alguns, a formulação de outros, mas, principalmente, sendo testemunha ocular da luta de dezenas, de centenas e de milhares. E tem na gente representantes hoje no poder, mas muitos, como várias companheiras na luta cotidiana do movimento dos trabalhadores, do movimento popular, hoje não são e não estão aqui, mas são exemplos vivos de coerência, de luta e de compromisso histórico com as mudanças que a gente está fazendo.
E, aqui, eu queria, em nome, e eu me lembrei agora, da nossa companheira Fátima, do OP, fazer essa homenagem a esses companheiros. E dizer ao companheiro João Paulo que hoje você é ex-prefeito, mas, como você diz - ele até acha que não sou um revolucionário, mas sou - e nós vamos continuar daqui para a frente, não João da Costa prefeito e João Paulo ex-prefeito, vamos continuar companheiros da luta do povo brasileiro. Isso eu quero fazer junto com todo mundo, com todos da cidade do Recife que acreditam no projeto que a gente está construindo. De mãos dadas, caminhar juntos e continuar construindo o sonho de uma sociedade mais justa, fraterna, solidária e socialista. Grande abraço a todos.
Discurso de João da Costa na Câmara Municipal: Há dois anos e meio recebi a cópia de um poema chamado Sempre Recife, de Paulo Freire, que ele escreveu em 1969, falando da sua saudade do Recife, como ela tinha influenciado no seu pensamento e no seu compromisso político e no seu compromisso de vida. E naquele dia, eu pensei, se o destino me colocar como prefeito da cidade do Recife, é com esse poema que eu quero tomar posse. E isso aconteceu pela vontade do povo do Recife e quero fazer isso através da figura histórica, militante e comprometida com as causas populares que foi Paulo Freire, homenagear e agradecer a todos os militantes, a todos aqueles que sonharam, que organizaram, que nos ajudaram e trabalharam para que esse projeto político tivesse continuidade na cidade. Projeto político que é continuidade de uma luta de muitos e muitos companheiros, não só herdeiro de lutas, mas de experiência de gestão e de administração pública em defesa das causas populares do povo, da democracia e das transformações sociais no Recife, em Pernambuco e no Brasil.
E em nome desse poema de Paulo Freire, poder homenagear uma geração que poderia ter dado continuidade à obra de Pelópidas, de Arraes na cidade do Recife, mas em função da ditadura militar foram presos, torturados, exilados e, mesmo comprometidos com essa luta, não tiveram a oportunidade de serem gestores públicos de nossa cidade para poderem aprofundar aquilo que começou através de Pelópidas, deu continuidade com Arraes e que só em 2000, com a eleição do prefeito João Paulo e do vice Luciano Siqueira poderia resgatar o seu ideário, o compromisso de gestão pública, que bem obtendo sucesso e êxito no Recife e que eu tenho o compromisso, junto com o companheiro Milton Coelho, de dar continuidade e de trabalhar aqui no Recife.
Não de forma exclusiva, só com quem pensa igual à Frente do Recife, vamos ouvir todos da sociedade e esperamos, ao ouvir todos, travar um debate democrático sobre projetos, sobre idéias, mas nunca renunciando as nossas bandeiras históricas em defesa da democracia, da incorporação da qualidade de vida de milhares de oprimidos e excluídos da nossa cidade, construindo um projeto econômico que transforme a cidade, mas que tenha com objetivo cuidar dos mais pobres, que gere riqueza, que gere produção, que faça o Recife crescer, mas que passe a incorporar na sua vida cotidiana os milhares de excluídos que muitas vezes não tiveram oportunidade de trabalho e de construir na cidade que amam uma vida de qualidade, uma vida lhe que desse condição de exercer cidadania plena.
Fazendo essa homenagem a Paulo Freire, faço homenagem a essa geração e, olhando aqui o companheiro Luciano Siqueira, eu identifico nele essa geração que teve a coragem, a ousadia e o patriotismo de combater a ditadura, mas também teve a oportunidade de fazer a gestão pública junto com o prefeito João Paulo. Eu não poderia deixar de agradecer aqueles que nos ajudaram diretamente na campanha, nossos companheiros e companheiras diretamente envolvidos na coordenação de campanha. Enfrentamos momentos difíceis, mas a gente soube atravessar os desafios e confiando na luta do povo, o povo poder nos eleger prefeito e vice-prefeito da cidade.
Quero fazer um agradecimento especial à minha companheira Marília e ao meu filho João Victor, que, em casa, souberam dar a retaguarda emocional, afetiva, que preciso para que eu pudesse enfrentar as dificuldades e os desafios que o processo político como essa coloca diante de todos nós.
E fazer uma homenagem à memória do meu pai e da minha mãe, que não estão aqui presentes, mas fazem parte da minha formação e me orientaram durante toda vida. Se hoje eu sou prefeito da cidade do Recife, é em função de uma luta coletiva de vários partidos, de movimentos sociais, do povo da cidade do Recife, mas também tem um pedacinho deles na minha formação, na minha identidade. Se hoje eles não estão aqui fisicamente, a sua memória afetiva continua sendo parte de mim. Eu sempre disse que eu serei parte deles enquanto eu estiver vivendo.
Por isso, queria falar para vocês que fiz uma adaptação livre. Eu não vou repetir aqui exatamente o poema Sempre Recife, de Paulo Freire, que ele escreveu em 1969, em Santiago do Chile. Eu tomei a liberdade - eu não diria poética, porque não sou um poeta -, mas eu tomei a liberdade de usar o poema de Paulo Freire para adaptar o momento que estou vivendo, porque eu sinto uma identidade muito grande com esse texto. E tenho certeza que os que estão aqui terão essa identidade também.