Num ano em que a Bossa-Nova ficou cinqüentona, a imigração japonesa completou 100 anos e o Brasil rememorou os 200 anos da chegada da Família Real, além do quarto centenário do padre Antonio Vieira e do centenário de morte de Machado de Assis, parece natural que as editoras pautassem seus lançamentos em cima dessas efemérides, não esquecendo as 40 primaveras do maio de 1968, o ano em que todos viveram em perigo. Desnecessário dizer que 2008 foi um ano de revisionismo e muitas reedições - não só por conta das comemorações, mas por causa de um recente fenômeno, o das novas traduções de obras clássicas apresentadas em edições de luxo e caixas especiais.
É o caso, por exemplo, de Moby Dick, de Herman Melville (Cosac Naify), versão definitiva da obra-prima do escritor norte-americano que exigiu o consórcio de dois tradutores (Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza) e uma exaustiva pesquisa para recuperar resenhas e estudos publicados na época do lançamento. A editora fez o mesmo com pelo menos outros dois livros lançados este ano, Satiricon, de Petrônio e Três vidas, que reúne três novelas da escritora vanguardista norte-americana Gertrud Stein. A Cosac Naify, que começou há dez anos produzindo livros de arte, publicou este ano mais literatura - de ótima qualidade, como comprovam o recente lançamento de Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger e o novo livro do argentino Alan Pauls, História do pranto.
De qualquer modo, um livro de arte que se destaca entre os publicados pela editora é o do crítico norte-americano Leo Steinberg, Outros critérios, 13 ensaios produzidos entre 1955 e 1972 que cobrem o período mais produtivo da arte nos EUA no século passado. A publicação de ensaios sobre arte ganha cada vez mais espaço no mercado editorial com obras bem cuidadas como Uma nova história da arte, de Julian Bell e New art city, do norte-americano Jed Perl. Bell, um historiador de arte que também é pintor, adota uma perspectiva global para cruzar estilos e influências artísticas do Ocidente e Oriente. Perl, em seu livro,conta como Nova York virou a meca da arte moderna nos anos 1950, graças aos artistas do expressionismo abstrato.
Por essa época, a Bossa-Nova dava os primeiros passos no Brasil, sendo lançada oficialmente em 1958 com um disco de João Gilberto. O crítico Zuza Homem de Mello conta toda essa história com depoimentos dos inventores do gênero (Jobim, inclusive) e 27 nomes importantes da MPB em Eis aqui os bossa-nova. A mesma editora responde pelo mais provocativo lançamento de filosofia deste ano, Contra-história da filosofia, o primeiro e o segundo volumes de uma série escrita pelo francês Michel Onfray, cuja pregação anti-religiosa tem feito barulho na Europa.
Na área de literatura estrangeira, o grande barulhento foi mesmo o chileno Roberto Bolaño (1953-2003), descoberto após sua morte pelos americanos, que o elegeram o escritor da temporada pelo livro 2666, lido por todos os escritores que importam em Nova York, da jovem Nicole Krauss à veterana Cynthia Ozick. A Companhia das Letras acaba de lançar dele Amuleto, a homenagem de Bolaño a todos os poetas mexicanos e exilados políticos latinos. O alemão W. G. Sebald , que morreu em 2001, aos 57 anos, passou a ser publicado aqui pela mesma editora, que já colocou dois livros excepcionais do autor no mercado: Austerlitz e Vertigem. A Companhia das Letras respondeu por outros lançamentos excepcionais de literatura estrangeira, entre eles dois livros de Philip Roth (Fantasma Sai de Cena e Entre Nós).
A literatura brasileira ganhou espaço e visibilidade, impulsionada por prêmios literários, a começar pelo grande premiado Cristóvão Tezza. Dos lançamentos nacionais também merecem destaque os livros: Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, O santo sujo, de Humberto Werneck, Acenos e afagos, de João Gilberto Noll e Ó, de Nuno Ramos (Iluminuras, 289 págs., R$ 44).
No ano do centenário de morte de Machado de Assis, o lançamento de Machado de Assis - 1935-1958, de Augusto Meyer, que traz ensaios do grande especialista, destaca-se entre muitos e muitos bons livros sobre o bruxo de Cosme Velho, redescoberto em campos onde não era considerado um craque, como no teatro (Machado de Assis: Do teatro, organizado por João Roberto Faria). Entre as traduções, a de maior fôlego foi a de Os irmãos Karamázov. É um tratado moral tão forte quanto os sermões de padre Vieira, lembrado em várias edições (entre elas Padre Antônio Vieira: um esboço biográfico, de Clóvis Bulcão), assim como a chegada família real brasileira em 1808, que teve em Dicionário Joanino, de Ronaldo Vainfas e Lúcia Bastos, uma contribuição original sobre o Brasil do tempo do Império.