Impressões sobre a crise dos europeus
- Mas por que você não disse antes?
- Porque só descobri que você estava na Europa depois que já tinha ido, ora.
Foi mais ou menos assim o diálogo que tive com Juliana Aragão, editora assistente do Diariodepernambuco.com.br, quando ela voltou das merecidas férias. Pedi a Juliana que me contasse como o povo do Velho Continente estava enfrentando a crise financeira, que por lá já virou econômica, com anúncios de recessão feitos por alguns países, crescimento do desemprego. Ela disse que, se soubesse do pedido antes, conversaria com as pessoas e observaria tudo com outro olhar. É verdade. Mas o olhar aguçado de jornalista estava presente, sim. O que Juliana me falou, mesmo sem ter viajado com essa predisposição, rendeu um bocado de linhas, como vocês podem conferir abaixo.
CONVERSA SÉRIA LOGO NA CHEGADA
Juliana passou alguns dias das férias em Amsterdã, capital da Holanda. Foi recebida pelo amigo Anderson, que mora lá há oito anos. A crise foi o assunto da primeira conversa entre os dois, ainda no trem, a caminho da casa do rapaz. "Minha filha, a crise me atingiu de uma maneira direta. Mais tarde eu conto". Já em casa, Anderson - que trabalha no banco ABN Amro, comprado no passado pelo consórcio formado pelo Royal Bank of Scotland (RBS), Fortis e Santander - disse que a crise veio como uma avalanche. Depois da compra, ele foi colocado na equipe que desenvolveria um projeto especial no Fortis. O banco belga acabou sendo parcialmente nacionalizado pelo governo por problemas de liquidez. O tal projeto especial foi abortado e Anderson e outras 60 pessoas ficaram "à disposição". Para o banco, foi melhor deixar o pessoal em casa, recebendo os salários, até definir a situação deles.
ESPERA E DECEPÇÃO
Ganhar sem trabalhar pode parecer o paraíso. Mas não numa situação como essa. O emprego de Anderson pode não existir mais depois de amanhã. Ele até se voluntariou para trabalhar em outro projeto, mas do banco RBS. Administrador de empresas que fez carreira como DJ na Europa, Anderson já começa a amadurecer a idéia de abandonar o mercado financeiro e abrir um bar em Amsterdã. A situação dele é complicada, mas a de outros brasileiros é bem pior. Juliana conheceu dois conterrâneos que estão desempregados e agora fazem bico para se sustentar. Na hora de escolher, as empresas preferem admitir ou manter os holandeses "de nascença" ao invés dos naturalizados ou imigrantes.
TURISMO DIFERENTE
Em suas andanças européias, Juliana percebeu situações bem diferentes das vistas outras vezes em que esteve por lá. Foi fácil, por exemplo, reservar hotéis e conseguir vôos de última hora, os trens estavam vazios. Sempre havia vagas disponíveis e os preços estavam "convidativos". Ela também não viu muitos mochileiros, figuras que já fazem parte da paisagem das grandes cidades européias. Na Turquia, ela conversou com alguns guias de viagem. "Dois deles, apesar de formados em outras áreas (administração) optaram por se preparar e prestar o exame obrigatório (difícil e concorrido) que os habilita a serem guias", contou Juliana. A opção é por cauas da dificuldade de se conseguir emprego em outros setores.
ACONTECE LOGO ALI, NA ESQUINA
Com os bancos "da esquina" anunciando falência, como bem lembrou minha colega e informante, a crise estava sempre estampada nas manchetes. "Os dados eram fatalmente alarmistas", descreveu Juliana. No geral, as pessoas por lá estão muito mais preocupadas com os rumos da economia do que no Brasil. Ela até ouviu comentários nas ruas sobre a dificuldade de se obter novos cartões de crédito.