Higlécia Clariane ainda vive um sonho: crescer no atletismo sem precisar deixar Pernambuco. Natural de Camaragibe, a especialista nos 400m com barreira teve dois anos de patrocínio da Funtec (2006, 2007) e hoje depende do bolsa atleta estadual, cujo valor atualmente é R$ 380,00. "Quando fui campeã sul-americana em 2006 cheguei a ganhar R$1.100,00, mas como em 2007 só fui vice-campeã brasileira, esse valor caiu para menos de um salário mínimo. Neste ano eu conquistei o Brasileiro, então, o valor deve subir em 2009", anima-se a atleta.
Aos 22 anos, Higlécia já recebeu várias propostas para sair do estado. Todas recusadas de cara. "Não quero abandonar minha terra e minha família. Ainda tenho esperanças de crescer no esporte sem precisar abandonar tudo que eu amo. Estou esperando para ver os centros esportivos de Pernambuco chegarem ao nível dos nacionais", diz.
No fundo, a velocista sabe das dificuldades do atletismo local. Em 2007, quando ainda usufruía do apoio da Funtec, a bicampeã sul-americana passou doismeses treinando no Ibirapuera, em São Paulo, ao lado do treinador pernambucano Abrãao Nascimento e de outros especialistas brasileiros. "Quando voltei da temporada paulista, fiquei impressionada com meus resultados na pista. Meus tempos melhoraram consideravelmente. Este ano, sem patrocínio nenhum, não pude fazer o mesmo e senti uma queda no rendimento", reconheceu Higlécia.
Na teoria, a certeza de que é preciso superar a dificuldade financeira para manter o ritmo dos treinos. Na prática, o emocional trava o desempenho e a falta de verba faz com que muitos desistam do sonho de representar o país através do esporte. Todos os anos são dezenas de talentos locais rendidos à dura realidade: deixar para trás o dom e correr atrás do dinheiro que garanta sua sobrevivência. Difícil é viver de esporte. Os poucos que conseguiram, a exemplo de Joanna e Yane, se deparam agora com a frustração pela falta de reconhecimento.