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Entrevista // Ciro Gomes



"A política de juros é ruinosa"

O deputado federal Ciro Gomes (PSB) é conhecido por seus comentários ácidos e por não poupar nem os aliados. Ontem, durante a posse da direção do PSB nacional, a verve polêmica do socialista voltou a aparecer. Depois de seis anos de silêncio, segundo ele próprio, Ciro fez suas primeiras críticas públicas à política econômica do governo. Afirmou que o Banco Central do Brasil ainda "enfrenta um inimigo caricaturado (a inflação) e abrirá as portas para a crise em 2009". "Ele pode destruir o itinerário extraordinário que o Brasil tem seguido com o presidente Lula", opinou após ressaltar que iria deixar a conveniência de lado. E ainda disse que falaria sobre a coalizão PT/PMDB. Mas defendeu veementemente o presidente Lula.

Segundo Ciro, o PSB é portador de uma bandeira que está pálida, o socialismo, embora acredite que é possível assegurar o crescimento das forças progressistas em 2010. Ao ser perguntado se é pré-candidato à presidência, o deputado responde que ninguém é candidato de si próprio. E lembra que o PSBtem outros nomes para a disputa presidencial, como o governador Eduardo Campos e o senador Renato Casagrande. "Vou cumprir o papel que o partido e o bloco de esquerda designarem. Mas não quero ser vice", destacou ao falar com a imprensa antes da posse. Depois, disse que não gostaria de fazer o debate de 2010 agora.

O senhor acha que o Brasil está respondendo bem à crise?

Ainda não. Gosto de ver o que o presidente Lula está fazendo ante uma crítica destrutiva dos velhos e de sempre setores aliados da mídia do Sudeste. O papel do presidente da República é animar a sociedade, porque uma fração central dessa crise é subjetiva, é uma crise de confiança. Portanto, os remédios tradicionais do mundo lá fora não vão funcionar se não houver uma restauração desse elemento subjetivo. De um lado, ele está dizendo à sociedade que essa crise é grave, mas que o efeito sobre o Brasil não deve ser multiplicado, porque os fatores centrais e objetivos do componente internacional não estão presentes no Brasil. O componente físico da crise também lá fora não tem a ver com o Brasil, porque o juro brasileiro é tão cronicamente alto há tanto tempo que neste mercado louco de derivativos que deu origem à crise internacional os bancos do Brasil não entraram. Porque aplicação financeira é um misto de segurança e rentabilidade. No Brasil, essa política ruinosa de juros ao longo de 25 anos garante segurança e altíssima rentabilidade. Então, os bancos brasileiros não foram e estão especulando com a crise. Essa primeira parte está correta, de tomar iniciativas, mas tem uma questão de modelo. Reduzir tributos é uma resposta errada, aumentar juros é uma resposta estúpida - acrescentou um concorrente interno que não precisava existir. Desta vez, não quebraremos. Graças ao Lula, nestes dois séculos, dada uma crise de liquidez internacional, pela primeira vez o Brasil não quebra. O efeito será que nós vamos cair para menos da metade a taxa de crescimento econômico. Não acredito que nós iremos crescer a mais de 2,5%. O que não é suficiente para garantir os ganhos de produtividade e a chegada de 2,6 milhões jovens ao mercado de trabalho. O que quer dizer que a taxa de desemprego que caiu em todos os meses do governo lula vai voltar a subir.

E sobre 2010...

2009 vem depois de 2008 e 2010 só depois de 2009.

Mas o presidente Lula já anunciou a ministra Dilma Rousseff como candidata à Presidência...

O que há de impertinência nisso? A Dilma é uma pessoa extremamente qualificada, o PT é o principal partido do Brasil, com todos as suas virtudes e mazelas. Então, que eles se preparem para disputar a candidatura e que o capital político do Lula seja emprestado a esse ou aquele candidato e a ministra Dilma tem todas as qualidades. Para mim está dentro do normal, do previsto. Para mim, a questão básica é se isto, o legítimo interesse do PT e o direito de Lula de emprestar seu capital político que ele conquistou a duras penas e com seus riscos graves que ele correu, se isto é tudo o que o Brasil precisa ou se há outras questões que devem ser agregadas no processo do debate. E isso é o papel de um partido como o nosso, que somos amigos, aliados, leais, que podemos disputar porque temos personalidade própria e podemos não querer nada no outro extremo se apenas entendermos que o Brasil está bem conduzido naquela direção.

E o PSB tem candidato?

O partido tem o Eduardo Campos, quetem todos os talentos e tem uma vantagem com relação a mim, que é essa juventude extraordinária que não tenho mais. Enfim, nós temos vários nomes e o bom é isso, que nenhum de nós está obsessivamente querendo ser candidato. E todos nós, sendo chamados, teremos que ser.

Diante desse cenário de crise, qual seria o desafio do próximo presidente?

Tem o desafio de modelo econômico, que só é possível discutir com paz e com tranqüilidade pelo avanço extraordinário que o governo Lula representou. Por que o Brasil não vai quebrar desta vez? Todas as vezes ao longo de dois séculos, já no governo Fernando Henrique, nós quebramos três vezes. Todas as vezes que a liquidez internacional contraiu uma crisezinha qualquer, o brasil quebrava. Dessa vez, o Lula inverteu a equação. Nós temos mais reservas.

O senhor disse que falaria sobre a coalisão do PT com o PMDB, o que significa?

A hegemonia moral e intelectual que está presidindo este encontro. A política que o Brasil precisa é volume? Eu acho que não. O PMDB tem grandes virtudes, mas ao mesmo tempo, grandes competições como base. Se essa coalisão PT/PMDB se dá pela contradição e não pelas virtudes, eu me preocupo. Aliás é antiga a minha preocupação, eu fiz essa mesma crítica com Fernando Henrique e a rigor é a mesma turma.

O senhor defendeu Lula, apesar de tecer críticas à política econômica, por quê?

Todos os grandes avanços do Brasil foram Lula contra (a própria máquina do) governo. O Banco Central do Brasil trabalha para contrair o crédito e Lula, para expandir o crédito do BNDES, da construção civil, do Pronaf (agricultura familiar), empréstimos consignados para os aposentados e assalariados do país.


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Edição de sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 
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