A vida tem sido teimosa para João Victor, de apenas sete meses de idade. Ele nasceu com Síndrome de Down e uma doença do coração que é fatal e rara em Pernambuco - há apenas três relatos no estado nos últimos 30 anos. Um balão de oxigênio emprestado garante a sobrevivência às crises, quando o ar falta a ponto do menino desfalecer. Na internet e na cidade natal, Goiana, os pais João Bosco Barreto e Valéria Paiva têm encontrado ajuda. O bastante para levar João Victor e a família a São Paulo, onde o bebê será operado por um especialista na cardiopatia conhecida por Síndrome do Bebê Azul. Há apenas 48 horas do embarque, porém, mais uma teimosia da vida - ou da morte - apareceu para o bebê: a companhia aérea que o levaria chegou a recusá-lo como passageiro do vôo previsto para amanhã de manhã. A empresa voltou atrás, depois de saber do caso pela reportagem. Na noite de ontem, se comprometeu a embarcar a família no dia e horário previstos.
A resposta negativa da TAM Linhas Aéreas chegou na tarde de ontem, segundo conta João Bosco. "Iniciei o processo na segunda-feira. Na terça, eu já estava enviando os documentos que a companhia me pediu. Entre esses, o laudo médico realizado aqui (no Recife) informando que meu filho pode viajar de avião, sem maiores riscos", diz o pai. A criança com Síndrome do Bebê Azul (cientificamente chamada de Tetralogia Fallot) apresenta cianose (coloração azulada), porque o sangue que circula no corpo não é suficientemente oxigenado. "Existe um estreitamento na artéria pulmonar que atrapalha a circulação", explica o pai.
O primeiro contato de João Bosco com a companhia aérea foi para solicitar um balão de oxigênio. "O médico que vai operar meu filho indicou a necessidade do aparelho apenas por precaução. Aí, a companhia alegou, na quarta-feira, que não iria instalar o balão porque não aceitava o laudo. Corri atrás de outro laudo, com outro especialista, e encaminhei de novo. Hoje de manhã (ontem), por volta das 9h, quando eu ligo para checar o pedido, a TAM diz que a aérea médica aprovou, mas faltava a área de infra-estrutura liberar. Ao meio-dia, a companhia liga avisando que tudo tinha sido negado".
O caso chegou ainda ontem à noite à diretoria de comunicação da TAM. Em cerca de uma hora após o contato da reportagem, a companhia se comprometeu a embarcar a família e a instalar o balão de oxigênio na aeronave. "Um funcionário ligou para o meu celular dizendo que tudo seria resolvido. Mas ainda estou inseguro, porque foram tantos obstáculos que a empresa criou para chegar até isso", confessa o pai, que está desempregado. As passagens aéreas, assim como outras despesas dos pais para acompanhar o filho foram custeadas pela Prefeitura de Goiana, pelo porta-a-porta no município, venda de camisetas e campanha na internet.
Valéria utilizou o site de relacionamento Orkut para encontrar experiências - de cura e de óbito - de outras famílias. Na rede, ela recebeu ajuda de uma mãe de São Paulo, que indicou o serviço de filantropia do Hospital doCoração (HCor). Tanto a unidade, quanto o médico Luiz Bento, um especialista na cardiopatia, vão tratar João Victor gratuitamente. "Logo Valéria, que detestava Orkut", escreve João Bosco no site que criou para conseguir o filho. Mas navegar foi preciso. E voar também será.