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Festival Recife // Alfenim mostra como o mundo não deveria ser

As relações de poder que levam a pensar o mundo de modo mais crítico mobilizam o trabalho do grupo Teatro Alfenim. Com sede na vizinha João Pessoa, eles estrearam em fevereiro deste ano sua primeira montagem, Quebra-Quilos. O texto, do dramaturgo e diretor paulista Márcio Marciano, com co-autoria dos atores da companhia, parte da revolução ocorrida no Sertão da Paraíba, em 1874, para relatar a história de duas mulheres expulsas do campo e obrigadas a procurar abrigo em uma vila, nas proximidades de Campina Grande.

Preconceito, discriminação, luta contra a violência são questões apontadas em Quebra-Quilos, que pode ser vista em três ocasiões, dentro do 11º Festival Recife do Teatro Nacional (de hoje a domingo, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho). O tom de reflexão sobre a sociedade da época faz com que temas que mobilizaram a população mais de 130 anos atrás permaneçam bem atuais. "Falamos sobre as condições abstratas encontradas para racionalizar a economia naquela época. Da mesma forma que o homem comum de hoje tenta compreender a globalização e o movimento das bolsas de valores", compara Márcio Marciano.

Os chamados "quebra-quilos" eram pessoas do povo, que brigaram contra a implantação do sistema métrico decimal imposta pelas tropas da Guarda Nacional, a mando das forças do império. Uma cuia de farinha passaria a valer um quilo do produto vendido na feira. Daí o espetáculo ter adotado um tabuleiro de feira como cenário, onde os atores circulam como se fossem as próprias mercadorias.

Ex-integrante da Cia do Latão, um dos principais grupos da cena teatral de São Paulo, Márcio Marciano se mudou para João Pessoa há dois anos e meio. Encarou o desafio de começar um novo grupo da estaca zero, selecionando um elenco que envolve intérpretes de três gerações. A atriz Zezita Matos (a avó da protagonista no filme O céu de Suely), que vive a mãe em Quebra-Quilos, tem mais de 50 anos de experiência no palco. Ela contracena com Soia Lira (do Piollin), sua filha nesta trama. "Localizamos este período histórico, mas a revolta é sentida do ponto de vista destas duas mulheres. E aí entram temas atuais, como a mercantilização do corpo, pois a mãe se vê obrigada a vender a filha na feira, para sobreviver", revela o diretor. Ele conta que a criação do espetáculo se desenvolveu a partir de improvisações dos atores na sala de ensaio. "Não sabemos apontar as soluções, mas colocamos em cena como o mundo não deveria ser", ressalta.

Serviço

Quebra-Quilos, do grupo Teatro Alfenim
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (Bairro do Recife)
Quando: Hoje, sábado e domingo, às 20h
Quanto: R$ 5
Informações: 3232-2030


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Edição de sexta-feira, 28 de novembro de 2008 
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