O cantor e compositor baiano Tom Zé é sério candidato a receber os prêmios de "melhor de disco do ano" com o seu Estudando a Bossa - Nordeste plaza (Biscoito Fino).
 Baiano interpreta canções do novo disco e clássicos de sua carreira. Foto: André Conti/Divulgação |
Isso se ele também não descolar o primeiro lugar na categoria "personalidade musical" nas listas dos críticos e do público. O disco, lançado justo quando se comemora os 50 anos da Bossa Nova, é uma declaração de amor ao movimento musical recoberta por um véu de ironia refinada e complexa.
A provável boa repercussão desse novo trabalho deve ampliar as lotações das apresentações desse baiano de Irará. Sua inquietude, dinamismo e, vamos lá, genialidade, transformam as performances ao vivo em um espetáculo que transfigura o que é registrado em CD. Os recifenses que o aguardam hoje, no palco do Teatro da UFPE (projeto MPB Petrobras), podem comprovar: Tom Zé é também um mutante. Não será supresa se o show aqui seguir um roteiro bem diferente do registrado em outras capitais.
Ocerto é que, além do repertório de Estudando a Bossa, Tom Zé tem cantado pérolas do sua carreira. Também parece ter esgotado o arsenal de respostas a Caetano Veloso, depois que este rasgou elogios ao disco no seu blog e e deflagrou uma polêmica. Tom Zé surpreendeu a todos com o tom ressentido de um comentário feito depois de um show ("vá tomar no..."). Afinal, nas declarações anteriores sobre o Estudando a Bossa, ele elogiou (ou ironizou?) Caetano e Gil, a quem chamou de "verdadeiros homens finos# depurados, muito perto da compreensão do que Tom Jobim, João Gilberto e Carlos Lyra estavam fazendo". Ele, Tom Zé, por outro lado, diz ter feito música "crua e bárbara".
Esse suposto primitivismo é redimido com Estudando a Bossa, um olhar enviesado, mas sem nada de indigesto, sobre a suavidade da bossa nova. Se chegou perto da "coisa fina" com Estudando a Bossa, Tom Zé diz que foi graças ao tipo de leitura que tem feito, ao tai chi chuan que pratica e à mulher culta com quem é casado (Neusa Martins, também sua produtora). Tudo isso, segundo ele, gerou a transformação capaz de lhe permitir criar um disco de bossa nova.
Sem os experimentos verbais, harmônicos e melódicos esse seria apenas um disco de ótimas, refinadas e bem acabadas canções. Mas só quem não conhece Tom Zé para imaginar que essa subtração fosse possível. Na versão para o palco, além do próprio cantor-ator, estão os músicos-vocalistas de sua banda: Cristina Carneiro (teclados), Luanda (vocais), Lauro Léllis (bateria), Renato Léllis (baixo), Daniel Maia (guitarra) e Jarbas Mariz (percussão e bandolim). O repertório traz canções como Brazil - Capital Buenos Aires, Salvador Bahia de Caymmi, Outra Insensatez, Barquinho-Herói, Filho do Pato e Roquenrol Bim-Bom.
São faixas que remetem ao universo da Bossa Nova, mas encantam pela maneira crítica com que foram compostas. É certamente o seu disco/ show mais inventivo desde que foi (re) descoberto por David Byrne nos anos 90. Somado ao fato de ter sido lançado num ano de homenagens e reverências muito sérias e "finas", traz também a dose certa de escracho e devoção; o contraponto necessário de um artista que, felizmente, nunca soube (ou tentou) ser diferente do que continua a ser.
Serviço
Show Tom Zé - Estudando a Bossa
Quando: Hoje, às 21h (abertura com Morse Lyra e Allan Sales)
Onde: Teatro da UFPE
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)