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Deserto feliz, o novo filme de Paulo Caldas, estréia hoje no Recife


Sem precisar apelar para cenas explícitas de violência e sexo, o longa-metragem pernambucano Deserto feliz, dirigido por Paulo Caldas (Baile perfumado), transporta para a tela de cinema a situação vivida pelas garotas que se vendem ao turismo sexual.

Nash Laila interpreta protagonista Jéssica no longa filmado em Pernambuco e na Alemanha. Foto: Pressbook/Divulgação
A trajetória de uma menina que se muda de um lugarejo do Sertão (que dá título ao filme) para a capital em busca de uma vida mais digna é o fio condutor de uma trama que leva para a ficção cinematográfica questões como a prostituição na praia de Boa Viagem, o tráfico de animais no Sertão, o desenvolvimento agrícola do Vale do São Francisco, o cotidiano do Edifício Holiday e os abusos cometidos na privacidade dos ambientes familiares.

Deserto feliz ficou pronto em janeiro de 2007, mas só agora estréia nos cinemas brasileiros. Depois de circular por mais de 50 mostras nacionais e internacionais, incluindo os festivais de Berlim e Gramado, onde foi o grande premiado com seis troféus, o filme entra hoje em cartaz em 13 salas.

O percurso de Jéssica (interpretada por Nash Laila), de 15 anos de idade, começa no Sertão, numa comunidade agroindustrial nos arredores de Petrolina. A pobreza da família e os abusos cometidos pelo padrasto provocam sua fuga daquele ambiente opressor. Assim como a região produz frutas que são exportadas para a Europa, a menina inicia ali uma jornada que passa pelo Recife e se estende até a paisagem nevada da Alemanha.

A riqueza visual do filme se manifesta desde o início, com belas imagens de um tatu em movimento com sua armadura e de extensas plantações atravessadas pela tecnologia. Um estupro é uma das primeiras cenas de impacto, mas ela é filmada de maneira indireta, desfocada, quase abstrata. A agonia da personagem, portanto, é transmitida pela composição visual expressionista.

Esses momentos em que a câmera interfere explicitamente na construção dramática voltam a aparecer ao longo do filme. Paulo Caldas confirma o virtuosismo visual e sonoro (trilha sonora em alto volume), no limite do maneirismo, visto no Baile perfumado e no seu segundo longa, O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas, um documentário com recursos de linguagem de videoclipe. Os efeitos de câmera servem ainda para transmitir a arquitetura sinuosa do Holiday, o embalo embriagante de uma pista de dança e a opressão do frio berlinense. No conjunto, se sobressai um cinema pouco verbal e bastante sensorial, sem grandes diálogos ou reviravoltas e artimanhas de roteiro.

As cenas mais espontâneas de Deserto feliz se passam no Recife, em Boa Viagem, onde Jéssica entra em contato com o turismo sexual. Esse segundo ato é o mais consistente do ponto de vista humano, com um desempenho espontâneo das atrizes (sobretudo Hermila Guedes), fruto de uma profunda pesquisa junto a personagens reais, que também foram convidadas para aparecer na tela, se confundindo com o elenco profissional. (Júlio Cavani)

Saiba mais

Elenco: Com Nash Laila no papel principal, estão em Deserto feliz a consagrada Zezé Motta e atores ligados ao bom momento do cinema pernambucano, como Hermila Guedes, João Miguel e Peter Ketnath (trio revelado por Cinema, aspirina e urubus), além dos sempre expressivos Aramis Trindade, Servilio de Holanda e Magdale Alves.

Números: O filme custou R$ 2,2 milhões. A equipe técnica contou com 50 integrantes. O elenco principal tem dez atores e atrizes, mais figurantes e pequenas pontas. A estréia ocorre hoje em 13 salas de cinema do Rio, São Paulo e Recife.

Cenários: As plantações de uva do Vale do Rio São Francisco, nos arredores de Petrolina; a praia de Boa Viagem; o edifício Holiday, em Boa Viagem; o Bar do Dique, no Porto do Recife; as ruas de Berlim sob a neve.

Festivais: Participou de mais de 50 mostras de cinema em países como Espanha, Itália, Holanda, Estados Unidos, Inglaterra, Polônia, Suécia, México, Cuba, Israel, República Tcheca e Alemanha.

Música: Produzida por Fábio Trummer e Erasto Vasconcelos, a trilha sonora será lançada em CD, com músicas de DJ Dolores, Eddie, Academia da Berlinda, Mundo Livre, Chambaril, Kelvis Duran e Junio Barreto.


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Edição de sexta-feira, 28 de novembro de 2008 
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