De um lado, a problemática Lindsay Lohan circula com de mãos dadas com a DJ Samantha Ronson, a comediante Ellen DeGeneres está casada com a também atriz Portia de Rossi, Jodie Foster troca de companheira e Cynthia Nixon, a Miranda do seriado Sex and the city, deixa o casamento de décadas e dois filhos para embarcar um relacionamento com outra mulher. Do outro, filmes como Fabulous: The story of queer cinema in Hollywood (2006), documentário de Lisa Ades e Lesli Kleinberg, reconstituem a trajetória da presença dos gays nas telas da indústria cinematográfica mais forte e influente do planeta. No meio, as telas que se preenchem com O segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, Shortbus, de John Cameron Mitchell, e outras obras que abordam relacionamentos homossexuais sem estereotipia.
A primeira, e mais óbvia, conclusão é constatar que em Hollywood já se pode sair do armário. Duas décadas depois da morte do galã Rock Hudson (de AIDS, vale lembrar), de fato é mais fácil se assumir - algo que o próprio Hudson nunca fez. Tanto porque os tempos são outros como porque o cinema reflete o mundo que o consome. E há muito tempo os gays, lésbicas e transexuais são um mercado consumidor em potencial. Isso explica por que na televisão já é recorrente ter um personagem gay nos seriados (ainda que causem polêmica, vide a recente demissão de uma atriz do seriado Grey's anatomy) e, em parte, a curiosidade da imprensa com relação às vidas das celebridades.
Nesse contexto, qualquer gesto de Ellen - de fato uma pioneira que se assumiu publicamente quando sua personagem no seriado que levava seu nome confessou que era lésbica - vira manchete. Ou se torna uma notícia instantânea qualquer declaração da atriz e apresentadora Rosie O'Donnell, uma das maiores batalhadoras pela causa gay no entretenimento ianque. No campo da produção criativa, o ato de come out of the closet (como eles se referem a "sair do armário") foi se fortalecendo ao longo das décadas. Das referênciasveladas dos anos 1950 e 1960 às posturas mais sérias e engajadas dos anos 1980 e 1990, o cinema foi amadurecendo a maneira de retratar o gay.
Hipocrisia - Em Fabulous: The story of queer cinema in Hollywood, inédito nas salas brasileiras mas disponível na programação das emissoras de TV a cabo, essa história é narrada pelos próprios protagonistas. Atores como Ian McKellen e Heather Matarazzo e autores como Rose Troche, de Go fish, e Todd Haynes, de Velvet Goldmine e do maravilhoso Longe do paraíso. Nesse último, o personagem de Julianne Moore descobre que o marido, vivido por Dennis Quaid, também se relaciona com homens, e a solução é que ele consulte um médico para "se curar".... Típica hipocrisia da década de 50. É uma saga de superação e vitória, consideram Lisa Ades e Lesli Kleinberg e a maioria dVos seus entrevistados, porque se hoje existem cineastas como John Cameron Mitchell, que elege o sexo como ferramenta de libertação e politização em Shortbus, e platéias que se sentem reconhecidas, é porque muitos outros ousaram antes.
Na opinião do crítico e professor Alexandre Figueirôa, doutor em cinema pela Universidade de Sorbonne, a figura do gay já ganhou contornos menos pejorativos. "Ainda tem muita coisa para ser feita, em especial no cinema mainstream, com suas normas, regras e tabus. Mas Hollywood saiu de uma visão negativa, que escamoteava, demonizava aquelas pessoas, para uma visão positiva, na medida que esse grupo assumiu uma parcela de influência econômica, sobretudo um mercado consumidor importante. Então, era preciso sair dessa imagem estereotipada e negativa para uma mais otimista", observa. Mas ainda há lacunas. "Na verdade, o cinema de Hollywood tem a tendência a enquadrar essa minoria numa determinada visão que é aceita, uma visão politicamente correta. No meio disso, existem contradições, pois algumas coisas, como determinadas práticas de sexualidade e vivências sexuais, continuam meio à margem, de fora", alinhava Figueirôa.
Homossexualismo na telaO segredo de Brokeback Mountain (2005) A paixão entre os caubóis Ennis e Jack é uma crônica da impossibilidade de se viver o amor de forma plena.
Fazendo amor (1982) - Considerado por muitos dos cineastas que hoje fazem o cinema queer como um divisor de águas.
O pecado de todos nós (1967) - Conto de ressentimento e adultério em que Marlon Brando interpreta um major impotente e enrustido, que cobiça outro homem.
Go fish (1994) - A diretora Rose Troche, gay e ativista assumida, retrata universo do amor feminino de forma engajada, mas com humor e leveza.
De repente, no último verão (1959) - Diz-se que Tennessee Williams escreveu a peça quando a esposa descobriu que ele era gay.