A flauta mágica perdida. Poderia se dizer assim, sobre a história da adolescente de 14 anos aliciada pela internet para sair de Natal (RN) e atuar como garota de programa no Recife. Ela é como uma criança que ficou para trás, enquanto todas as outras da vila Hamelin, no conto de "O Flautista", em 1284, entravam numa passagem aberta pelo instrumento do misterioso homem, deixando para trás uma cidade de ingratos e avaros. A menina perdeu o toque da flauta e o que a aguardava depois da passagem, mas talvez acredite que essa cidade vá mudar e transformá-la numa dançarina famosa de uma banda de forró, seu maior sonho. Talvez só isso justifique as mentiras ditas pela garota à polícia e ao conselho tutelar de Olinda na última quinta-feira. Todas as investigações ficaram travadas, ontem, porque ela não disse a verdade sobre a família que deixou em Natal, nem falou detalhes sobre os aliciadores.
Até ontem, ela parecia perdida em relação aos dois mundos: Oda flauta e o da cidade. Um trabalho de paciência que precisa ser tocado pelo conselheiro tutelar de Olinda Charles Cléber e pelo delegado titular do Varadouro, Albéres Félix. Charles passou o dia de ontem ligando para conselhos tutelares de Natal, na tentativa de fazê-los chegar ao endereço da menina e descobrir se ela tem condições de voltar para casa, mas não teve sucesso. Além de a garota ter fornecido endereços falsos e garantir não saber telefones de parentes, era feriado em Natal. Já o delegado não conseguiu informações da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, embora um advogado tenha dito que descobriu a menina em Olinda ao vê-la num programa de pessoas desaparecidas.
Segundo o conselheiro, a garota negou que morava na praia de Pipa, como falou na quinta-feira. Assegurou, sim, morar no centro de Natal, o que também pode não ser verdade. Embora esteja dormindo num abrigo de Olinda, ela parece resistente em falar do passado.