O mundo de Noêmia é um só. Formado de expressões inanimadas, cujos olhos não choram, cujas bocas não abrem, não falam de verdade. Estão todas lá, as expressões, no quarto da frente da casa, arrumadas umas sobre as outras, em silêncio, mas à espera do próximo afago. Muita gente pensa que a paraibana de 78 anos é louca, adepta de rituais de magia negra, até. Mas não tem nada de anormal em seu mundo, cercado de sentimentos, os mais belos possíveis. Estranho mesmo é jogar no lixo aqueles corpos inanimados e feitos de plástico, é verdade, e só por isso maltratados. Quem se atreveu a destruir aquilo que viria a ser o tesouro de Noêmia Dantas da Silva? Viúva, aposentada, analfabeta, sozinha com suas expressões sem vida, mas que falam ao imaginário.
Ainda aos 5 anos, na Paraíba, Noêmia foi obrigada a pegar uma enxada para ajudar os pais na roça. "Cavava, arrancava toco. Vivia para trabalhar", lembra. Enquanto levava a vida na labuta, a menina recebeu uma ordem do pai, homem mais rígido quando se fala da perspectiva de uma criança: a proibiu de brincar.
Qual o direito que alguém tem de tirar o prazer de uma criança de brincar? Separar a menina de sua boneca, colocá-la no cabo de uma enxada, debaixo do sol? "Se brincar, apanha", ameaçava o pai. Noêmia tinha medo, mas a vida mostrava alternativas astuciosas. "Pegava o sabugo do milho e fazia de boneca. Brincava, depois cavava o chão e enterrava para meu pai não ver. Se ele descobrisse, levava uma surra", lembra. As diversas surras foram lavadas com água e sal pela mãe, uma mulher do mesmo jeito rígida com os filhos. "Não tinha carinho de pai e mãe. A gente não tinha direito de dar bom-dia a uma moça, quanto mais se fosse um moço. Mas nunca tive raiva do meu pai".
Os anos se passaram, as bonecas artesanais continuavam escondidas dos pais, até que veio o casamento com um estranho que vira uma única vez. Ela tinha 27 anos e ele, cerca de 40. "Ele não tinha amor a mim. Botava mulher em casa. Mas sinto saudade", desabafa, se referindo ao homem que morreu há um ano e meio. Uma união que durou 50 anos, que rendeu três filhos.
Mudança - A vida de Noêmia tomou um outro rumo. Ela tomou para si a responsabilidade sobre Jaqueline, a primeira boneca da sua coleção que já reúne mil delas. "Minha filha ganhou a boneca mas não gostava tanto de brincar", conta. Noivas, negras, meninos, meninas, sem pernas, abandonadas. As bonecas foram sendo doadas. Muitas encontradas no lixo, aparentemente imprestáveis. Um tesouro incalculável, distribuído em prateleiras de madeira empoeiradas, mas onde os seres inanimados estão protegidos por plásticos e caixas de papelão. Ganham perfume, amor, roupas e novos membros. "Essa daqui chegou sem cabeça e sem uma perna, mas eu consertei, coloquei outra cabeça. Acho uma malvadeza jogar elas fora", lembra. "Se tirarem as bonecas de mim eu morro", fala. Com o telhado ameaçado de cair por causa do cupins, Noêmia tem medo que sua coleção, o amor de sua vida, seja danificada. Não tem dinheiropara a reforma. Quem tiver interesse em ajudar pode procurá-la em casa, na Rua Jornalista Guerra de Holanda, 205, em Peixinhos, Olinda.