"Espelho, espelho meu. Existe alguém mais forte do que eu?". No mundo fantástico dos corpos sarados das academias de musculação, a frase retirada da história da Branca de Neve ganha novos contornos. Cheios de músculos. O problema é que na vida real, o espelho nem sempre reflete as coisas como elas são. Distúrbios emocionais, onde os indivíduos têm uma imagem distorcida de si mesmo, se acumulam nos consultórios médicos. E se no universo feminino, a anorexia e a bulimia fazem suas vítimas, no masculino a vigorexia ganha cada vez mais espaço. Em busca de troncos, pernas e braços recheados de músculos, eles (e elas também) abdicam da vida pessoal e caem na malhação. O vigoréxico, como é chamado quem tem esse distúrbio, também não se contenta e para conseguir ficar ainda mais forte faz uso de anabolizantes, o que aumenta os riscos de doenças cardiovasculares, lesões no fígado, câncer de próstata, disfunção sexual e de morte.
Em uma das nove comunidades do site Orkut sobre o assunto, uma pergunta inquieta: "por que você é vigoréxico?". O internauta "Jeh" responde: "Porque eu nasci no corpo errado". É a chamada 'síndrome do homem insatisfeito, como preferiu denominar o especialista em fisiologia do exercício e autor do livro O Mundo Anabólico, Azenildo Moura. Um transtorno que tem muitos pontos em comum com a anorexia. Nos dois distúrbios, há preocupação excessiva com o corpo, com a alimentação, distorção da própria imagem, baixa auto-estima e, muitas vezes, auto-medicação. Sem contar com o papel do culto ao conceito subjetivo de corpo perfeito, em ambos os casos.
Mas a vigorexia (um transtorno dismórfico corporal) pode ser considerada uma anorexia reversa. "Na anorexia, a pessoa está muito magra e se vê gorda, grande. Na vigorexia, ela está muito grande, forte, musculosa e se vê pequena", disse Moura. Segundo ele, a vigorexia combina a dependência ao exercício físico, a insatisfação com a própria imagem, a compulsão por dietas e prejuízos para a vida social. Além dos problemas para a saúde. Mesmo sem o uso de anabolizantes, o distúrbio pode provocar elevação do ritmo cardíaco em repouso, insônia, dores musculares persistentes, falta de apetite, irritabilidade, fraqueza, desinteresse sexual e muitos outros problemas.
O pernambucano João (nome fictício), 31 anos, entrou de cabeça nesse mundo onde o limite parecia não existir e os desejos eram sempre inalcançáveis. Tudo começou quando ele tinha 16 anos, 62 quilos e 1,80m. "Eu me afundei sério. Com um ano e meio malhando, estava com 76 quilos", diz ele, afirmando que era vigoréxico. Para ajudar no ganho de massa, João começou a usar suplementos alimentares ricos em calorias e proteínas. Depois, foi a vez dos anabolizantes. "Eu sabia que estava usando uma coisa perigosa", disse. E assim se seguiram cerca de 7 anos, alterando meses com e outros sem os anabolizantes. João chegou aos 102 quilos.
"Qualquer coisa que fosse impedir ou atrapalhar minha atividade física, eu desviava, arrumava desculpas, às vezes,sem cabimento", contou. Logo após o uso de anabolizantes, ele sentia falta de ar e taquicardia. Chegou a ficar cerca de um ano com arritmia, teve atrofia nos testículos e chegou a temer estar estéril. Só parou de usar anabolizantes por medo de morrer.