Elas já são reconhecidas por limpar o ar e amenizar o clima. Agora, tornaram-se importantes ingredientes na dieta de crianças e adolescentes. A descoberta não inclui nenhum regime maluco que estimule a ingestão de folhas de árvores. O segredo para um desenvolvimento saudável está é na proximidade entre a casa dos pequenos e as áreas verdes. Mais importante, no bom uso desses espaços.
 Os irmãos Maria Paula, 10 anos, e Pedro Gabriel, 8, aproveitam todo o espaço na Praça de Jardim São Paulo. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
A relação foi apontada por um estudo que reuniu pesquisadores de três universidades americanas em busca de uma maior compreensão sobre a obesidade infantil. Por dois anos, eles acompanharam 3,8 mil meninos e meninas com idades entre 3 e 16 anos. Desses, 17% estavam acima do peso e 23% obesos. A pesquisa, publicada como a primeira sobre o efeito de bairros verdes no peso desse público, identificou que a proximidade do gramado reduz em 95% a chance de eles continuarem engordando. Ou melhor. Quem mora próximo a áreas abertas mantem o peso mais facilmente.
A justificativa parece lógica. Residindo perto de parques, praças ou campos, a visita é mais freqüente e o gasto de energia é maior. Estudos anteriores, por exemplo, não indicaram essa associação em adultos. No artigo, estudiosos das universidades de Washington, de Indiana e da Faculdade de Medicina de Indiana lembraram que os mais velhos tendem a andar mais e manter um índice de gordura corporal mais baixo em áreas intensamente urbanizadas, como os centros das cidades. "Ambientes altamente urbanizados levam a mais caminhadas, pois as pessoas têm dificuldades para circular e estacionar, optando por dirigir menos", ressaltou a professora do departamento de serviços de saúde da Universidade de Washington, Janice Bell.
No caso dos pequenos, a correlação encontrada foi oposta. Em ambientes urbanos, crianças e jovens estão menos sujeitos a condicionar suas atividades a calçadas e ruas e os pais buscam espaços abertos, como quintais, praças e parques para desenvolver atividades físicas. "O verde indicaria, assim, proximidadede parques e isso promoveria um aumento do tempo gasto em atividades físicas e brincadeiras fora de casa", descreve a co-autora do estudo, que foi publicado no American Journal of Preventive Medicine (Jornal Americano de Medicina Preventiva). O comportamento foi observado em avaliações feitas de imagens por satélite que mediram a cobertura vegetal nas cidades pesquisadas. Nos relatórios, foi possível identificar a presença elevada do verde associada a um menor índice de gordura corporal e à redução de peso nas crianças.
Uma soma que Viviane Lima, 22 anos, constata no dia-a-dia com os sobrinhos. "Eles têm tendência a engordar e venho sempre à praça. É como um exercício natural e gratuito", ressaltou durante uma das idas à praça do bairro de Jardim São Paulo. Maria Paula, 10, disse que o passeio faz parte de seu calendário. "Segunda, quarta, sexta e sábado", citou. Em casa, apenas brinca de boneca. "Chamo minhas amigas. No parque, corro junto com o meu irmão Pedro Gabriel".
A praça também mantém o desenvolvimento saudável de Malcom, 5, Marlon, 3, e Melki, 1 e 4 meses. "Eles gostam muito de comer salgadinhos e biscoitos. Sei que essa alimentação é perigosa, mas gastam tudo aqui", disse o pai Maurício Ferreira.
saiba maisA pesquisa em detalhes
- Os pesquisadores americanos indicam também como efeitos positivos provocados por áreas verdes à saúde um aumento no aprendizado cognitivo (percepção, memória, linguagem) e redução de sintomas relacionados à hiperatividade e déficit de atenção
- Os modos como as crianças e adolescentes vivem e brincam em ambientes urbanos devem ser considerados. Sem esquecer dos hábitos alimentares
- A maior parte dos estudos anteriores focava em fatores individuais biológicos ou psicológicos com pequena ênfase, em determinantes coletivos, como os ambientes físicos
- É por focar em determinantes como um estudo longitudinal nas crianças que o estudo de Janice Bell é citado como uma importante contribuição à literatura atual
Fonte: American Journal of Preventive Medicine (Jornal Americano de Medicina Preventiva)