Monsenhor José Ayrton Guedes, 102 anos, sempre foi um homem de atitudes firmes. Tanto em relação aos outros quanto para si próprio. Exemplos são contados por quem sempre esteve ao seu lado. Mas um deles era facilmente percebido. O padre jamais abdicou do uso da batina. Isso por considerar a veste religiosa a marca do sacerdócio que abraçou há 80 anos. É com uma de suas batinas que será sepultado hoje, no Cemitério de Santo Amaro, o mais antigo padre em exercício no mundo.
Desde ontem à tarde, o corpo do padre está sendo velado na matriz da Paróquia de Nossa Senhora de Piedade, em Santo Amaro. Monsenhor Guedes vai à sepultura com a batina e os paramentos, alguns bordados com fios de ouro, que usou na ordenação sacerdotal, em outubro de 1928. "Duas coisas sintetizam bem a vida do monsenhor: a fé e o compromiosso com a Igreja Católica", resumiu padre Francisco Caetano Pereira, que por oito anos auxiliou monsenhor Guedes na paróquia.
A fé e o compromisso com a Igreja nortearam não só o monsenhor. Elas têm guiado centenas de fiéis a prestarem homenagens ao padre desde ontem. As despedidas continuam hoje, quando o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, celebra a missa de corpo presente às 10h. A presença do arcebispo é carregada de simbolismo. Monsenhor Guedes, nascido em Bezerros, no Agreste do estado, foi o confesssor de dom José Cardoso durante anos. A previsão é que o cortejo com o corpo do monsenhor deixe a matriz da Rua do Lima em direção ao cemitério por volta das 11h30.
Austero, conta padre Caetano, monsenhor Guedes jamais se curvou à doença. Sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) A partir daí, perdeu parte dos movimentos e da fala. "Mesmo assim nunca deixou de concelebrar a missa", relembra o padre. Sentado em uma cadeira de rodas, o monsenhor esforçava-se num canto do altar e erguia a mão para abençoar a hóstia e o vinho junto a padre Caetano. E seguiu de tal modo até ser internado no Hospital Unimed II, na Ilha doLeite, em 1º de outubro. Mas as forças foram sendo reduzidas ao longo dos últimos 49 dias.
 Monsenhor Guedes, no dia em que completou 100 anos. Ele nunca abdicou da batina. Foto: Simone Ventura/Especial para o DP/D.A. Press - 27/7/06 |
Na manhã de ontem, dia liturgicamente dedicado a São Paulo da Cruz, veio a morte. A causa, segundo os médicos, foi uma septicemia (infecção generalizada). "Ele deixa o exemplo", afirma padre Caetano. O exemplo estaria não só na sua fé e amor à Igreja, mas também na dedicação aos pobres. Em 1934, monsenhor Guedes fundou a Escola Dom Bosco de Peixinhos, em Olinda. A unidade surgiu a partir de aulas de catecismo ministradas embaixo de um cajueiro. Ele utilizou até o futebol para atrair alunos. Há dois anos, 130 meninos e meninas estudavam ali séries do ensino fundamental, mas hoje o espaço é cedido para uma creche da Prefeitura de Olinda.
Com a morte de monsenhor Guedes, praticamente desaparece da arquidiocese local o título de vigário colado. Ele detinha a distinção concedida por Pio XII e que não permitia a transferência da paróquia. Somente a deixou com a morte.