Brasília - A tuberculose diagnosticada muito tarde quase levou o ar da colombiana Claudia Castillo, 30 anos. Todas as vezes que ia brincar com os filhos de 5 e 15 anos, conversar ou realizar tarefas domésticas, a jovem ficava com a respiração ofegante. A doença danificou a traquéia e fez com que o pulmão esquerdo entrasse em colapso. Foram várias cirurgias fracassadas e uma infecção hospitalar que lhe custou vários dias internada. Até que uma das mais promissoras ferramentas da medicina moderna devolveu a sua vida normal. Sob a coordenação do professor Paolo Macchiarini, especialista em cirurgia torácica no Hospital Clínico de Barcelona, Claudia recebeu transplante de traquéia sem medicação imunossupressora e com o uso das próprias células-tronco.
A primeira cirurgia do gênero no mundo foi realizada em 12 de junho. Para conseguir que o sistema imunológico da paciente aceitasse o novo órgão sem a necessidade de tomar medicamentos imunossupressores, Macchiarini recorreu à "engenhariade tecidos". Eles retiraram sete centímetros da traquéia de uma mulher de 51 anos, morta,e lavaram o órgão 25 vezes com um detergente enzimático. A substância "varreu" traços de células imunologicamente ativas. Depois banhou a traquéia com células respiratórias epiteliais extraídas do nariz de Claudia e em células-tronco da medula óssea da própria paciente. A traquéia ficou quatro dias se desenvolvendo em laboratório, antes de ser transplantada. "Eu estava com muito receio. Nós só havíamos feito esse trabalho com porcos", disse Macchiarini. "Mas assim que a traquéia saiu do biorreator, tivemos uma surpresa positiva". Quatro meses depois, o médico acredita que as chances de rejeição são praticamente nulas. "Estamos animados com os resultados. Ela está curtindo uma vida normal, o que, para nós, é um presente muito bonito", acrescentou.