O dia 2 de julho deste ano parecia normal para Angelita Maria da Silva. Ela estava em casa, se sentia bem, tirou um cochilo depois do almoço e, ao acordar, fez um lanche. De repente, tudo mudou. Naquela tarde, uma sensação estranha de queimor no centro do peito se somou a uma dormência no braço esquerdo, muito suor e vontade de vomitar e de defecar.
 Angelita Maria sabe que o fumo e a dieta foram alguns dos culpados pelo infarto que sofreu. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press |
Desesperada, ela gritou pela filha e implorou: "tô morrendo. Procure um socorro rápido". A dona-de-casa de 55 anos estava sofrendo um infarto. Casos como esse se multiplicam em Pernambuco. Estressadas, fumantes, gordinhas, sedentárias... Com tantos problemas, as mulheres estão sofrendo e morrendo mais devido a doenças do coração. No estado, as doenças circulatórias (sendo a maioria infarto) mataram 7.721 mulheres em 2005. Número que só fez subir e alcançou a marca de 7.940 em 2007.
E quem achava que problemas cardiovasculares são exclusivos dos homens, se enganou. Dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES) mostram que quando se fala em internações hospitalares por doenças cardiológicas, "elas" já ultrapassaram "eles". Uma compilação de dados de mais de 200 unidades de saúde do estado mostrou que de janeiro a maio deste ano 4.548 mulheres procuraram atendimento com problemas cardíacos. A quantidade de homens foi menor: 4.435. E não se trata de um "evento isolado". Essa constatação vem se repetindo há, pelo menos, quatro anos. Sem contar que, em se tratando de mortes por doenças circulatórias, a relação entre homens e mulheres está quase de um para um. Foram 8.353 homens mortos em 2007, uma diferença de apenas 413 em relação às mulheres.
Angelita, a personagem que deu início a esta história, conhece direitinho os ingredientes que culminaram no seu infarto há quatro meses. Ela fumou durante quase 40 anos, está na menopausa desde os 46, tinha uma dieta rica em gordura e um forte componente genético. Dois irmãos dela morreram devido a infartos. Um deles, de forma fulminante. O outro sobreviveu ao primeiro infarto, mas teve outro 12 anos depois e não resistiu. "Quando infartei, eu desconfiei do que estava acontecendo. Depois de escapar do primeiro infarto, meu irmão contou o que sentiu. Eu tive a mesma coisa", disse Angelita, que teve cinco paradas cardíacas naquele 2 de julho que não sairá da memória.
Histórico - E a ocorrência de um número cada vez maior de casos como o da dona-de-casa não está restrita a Pernambuco. Dados do Ministério da Saúde mostram que em todo o país as doenças isquêmicas do coração (grupo que inclui o infarto) representam a segunda causa de morte entre mulheres no Brasil, atrás apenas das doenças cerebrovasculares (como o AVC). Câncer de mama está atrás no ranking, em 9° lugar. Segundo o diretor do Angiocardio (SP) e especialista da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Hélio Castello, os principais fatores de risco cardiovascular são a idade, o histórico familiar (principalmente pai, mãe, irmãos), a obesidade (com destaque para a gordura abdominal), o diabetes, a hipertensão, o tabagismo e o colesterol alto.