Osócio de um escritório de advocacia do Recife, considerado o "chefão" por seus funcionários, é descrito como "gente boa e muito competente" e... "extremamente estressado". Do tipo que se retrai e somatiza os problemas enfrentados na labuta diária -tanto que toma remédios para controlar a ansiedade. Sua história, aqui descrita com brevidade e sem nomes para preservar a privacidade, é igual à de tantos outros empresários e diretores que ocupam cargos de chefia no Brasil afora. Se por um lado existem os aprendizes a almejar o posto de executivo, por outro a vida desses profissionais não é somente altos salários, metas de gestão e viagens de negócios. Há uma dose de estresse e vários motivos para preocupação.
Para Daniela Pellegrino, gerente de projetos da Passarelli Consultores, empresa sediada em São Paulo especializada na seleção de executivos, são três os motivos que tiram o sono dos diretores, gerentes, chief executive officers e gestores: "Empregabilidade, solidão e medo de tomar decisões". "Atuo na contratação de executivos de alto nível para ocupar cargos em diretoria e o que sinto nos profissionais que entrevisto é o medo que eles têm de ficar sem emprego, de sair de uma organização e não conseguir se recolocar em outra. Outra coisa: muito se fala do estresse, mas existe também a solidão do executivo", aponta.
Ela ilustra sua tese com uma pirâmide: "Na base, estão os funcionários. No meio, os gerentes de nível médio. Em cima, a diretoria. Isso vai afunilando. Geralmente, o executivo é alguém que chega a um cargo alto depois de ter passado por essas etapas. Nesse processo, é natural que as pessoas acabem vinculando o executivo à vaga dele, ou seja, a alguém que é superior". Fora isso, existe a obrigação de tomar decisões importantes. "Muitas vezes, é da decisão do executivo que depende um resultado ou até mesmo o futuro da empresa. Sob pressão, cresce o medo", situa Daniela Pellegrino.
O gestor de recursos Luiz Fernando Araújo, 35, trabalha hánove anos no mercado financeiro, "um setor muito afetado pelas emoções", como ele mesmo diz, ainda mais em tempos de crise. Sua empresa atende clientes que, diante do sobe-e-desce das bolsas de valores, não param de ligar. Como manter a tranqüilidade? "A filosofia da empresa é se descolar da psicologia das massas. Ou seja, não ficamos acompanhando a cotação das ações a toda hora. Há um investidor americano que diz que o mercado financeiro é bipolar: cresce na euforia e depois fica deprimido. Fugimos dessa variação adotando o estilo de não ficar correndo atrás de todo tipo de informação", responde.
Luiz Fernando, que também é professor universitário, não se considera um executivo estressado, embora lide com dinheiro e confiança alheios e trabalhe cerca de 12 horas diárias em um setor no qual é comum ver gente berrar ou arrancar os cabelos. "Mas conheço muitos que se estressam fácil, fácil", revela. "Procuro viajar, passar tempo com minhas filhas e organizar melhor os horários. Agora, por exemplo, acordo às 5hpara voltar às 17h. Nem sempre dá para sair, mas eu tento", conta, aos risos.
A única lacuna na sua rotina, ele confessa, é a atividade física. Na opinião de Carla Miranda, consultora e sócia da TGI - Consultoria em Gestão, exercitar-se é crucial para manter o profissional longe da confluência de tensão, agonia e estresse.
Afinal, mens sana in corpore sano e um executivo de mente sã em corpo são potencializa suas habilidades. "Diante do ritmo de vida puxado, é preciso cuidar da saúde. Convivo com muitos empresários e percebo que uma questão importante é a administração do tempo, atrelada à qualidade de vida. É preciso ter equilíbrio entre o trabalho e o lazer", ensina.