Barack Obama está mais perto do que se pode imaginar. Na verdade, está em Boa Viagem, Zona Sul da capital,
 Famílias ocuparam todos os 36 apartamentos do antigo hotel e fizeram a limpeza de cada andar. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press |
bem próximo ao maior shopping da América Latina. Mas não se trata do novo presidente dos Estados Unidos. Esse é o nome dado à invasão feita por 40 famílias ao antigo edifício Shopping Praia Hotel, abandonado há mais de cinco anos na Rua Professor João Medeiros. Utilizado como esconderijo de ladrões, ponto de drogas e prostituição, o prédio começou a mudar de cara, ontem, com uma faxina feita pelos novos "inquilinos", vizinhos de perfis bem diferentes do tradicional morador de Boa Viagem. Como Obama, eles querem sair do mundo dos excluídos e sem oportunidades para conquistar uma nova vida. Só não sabem, ainda, se poderão usar o mesmo slogan da campanha americana e dizer, ao final, "sim, nós podemos".
Assista ao vídeo aquiOs novos moradores do antigo Shopping Praia Hotel, agora Barack Obama, são conhecidos do bairro. Saíram da comunidade Entra Apulso, onde moravamem pequenas casas alugadas, para tentar construir um novo lar ou, quem sabe, agilizar outras providências do poder público. Eles ocuparam os 36 apartamentos abandonados do antigo imóvel e iniciaram uma limpeza de andar por andar. O trabalho é árduo. No edifício, atualmente, há escombros, lixo, fezes e mais de mil latinhas de refrigerante amassadas que eram usadas para queimar crack. Era um prédio ideal, até então, para aqueles que praticavam delitos em Boa Viagem e usavam o local para se esconder da polícia. Ponto estratégico num bairro que passou a ser um dos mais violentos do Recife, onde o confronto é freqüente entre os dois mundos: o dos abastados e o dos excluídos.
Esperança - As escadas do antigo hotel estão escuras, mal conservadas e as condições de segurança do imóvel ainda são desconhecidas. Não há água limpa nos canos, mas uma piscina destruída e deixada a céu aberto insiste em dar abrigo aos mosquitos da dengue. Mas o que importa, afinal, essa falta de estrutura? Para quem dormia em casa de parentes, em pequenos barracos de madeira alugados ao preço de R$ 250, o edifício é uma mudança de vida, representa esperança. Por isso, deram o nome ao lugar de Barack Obama. "Aqui, não vamos mais deixar entrar marginal", afirmou Marcelo Ferreira da Silva, 33 anos. Ele e a mulher, que está grávida, são um dos novos inquilinos do imóvel. Marcelo é artesão e disse não ter mais condições de pagar aluguel. "Espero que não nos tratem com violência, porque queremos viver honestamente aqui", frisou.
Marcelo foi um dos moradores que recebeu a reportagem do Diario. Ele mostrou as latas utilizadas por usuários de crack e a situação de abandono do prédio, que ainda tem um odor insuportável. O artesão aproveitou para apresentar a nova cozinha do edifício, onde mulheres e homens passaram a preparar e dividir a refeição. O prato do dia era feijão mulatinho, charque e lingüiça de porco. "Muito gostosa e limpinha", afirmou, orgulhoso do novo lar.
Nenhum dos moradores do "Barack Obama" tem carteira assinada, segundo acrescentou Marcelo. Mas todos fazem bicos. Lavam carros, são flanelinhas, trabalham como ajudante de pedreiros ou como vendedores na praia. "Esse prédio está abandonado há sete anos e a gente precisa desse espaço. Se não for a gente, vão ser os marginais", disse.