Silas Matheus Ataíde tem 6 anos, mora no bairro de Santo Amaro e estuda em uma escola municipal. Mariana
 Mariana Gonçalves, 5, só toma leite após muita "negociação" com a mãe. Foto: Ricardo Fernandes / DP / D.A Press |
Gonçalves tem 5, mora nos Aflitos e está matriculada em um colégio particular. O lar de Silas é formado por um vão onde os limites entre sala, quarto e cozinha são apenas dedutíveis, delimitados por poucos móveis e eletrodomésticos (sequer há refrigerador). Mariana mora em um apartamento de classe média com três quartos, uma sala de dois ambientes, cozinha e três banheiros. Na mesma cidade, o Recife, diferenças profundas separam as duas realidades. Mas, à mesa, deficiências nutricionais conferem um "quê" de semelhança a essas histórias. São carências comuns a grande parcela das crianças com 2 a 6 anos. Como a de cálcio, que atinge 57% de brasileirinhos entre 4 a 6 anos que estudam em escolas públicas e privadas. A baixa ingestão desse mineral pode comprometer o crescimento dos pequenos na idade adulta.
O dado faz parte do recente estudo Nutri-Brasil Infância, que analisou a alimentação de 3.111 crianças em idade pré-escolar de nove estados brasileiros, incluindo Pernambuco. A pesquisa mostrou que as carências nutricionais observadas aparecem de forma praticamente homogênea no país, independente dos níveis social e econômico locais. O estudo, que mapeou pela primeira vez o consumo alimentar de crianças das cinco regiões brasileiras, foi realizado pelo instituto Danone Research em parceria com o pediatra, nutrólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo Mauro Fisberg.
A deficiência de cálcio na dieta foi uma das constatações que mais chamou a atenção dos pesquisadores. O mineral é importante para o fortalecimento e o desenvolvimento ósseo. E devido às grandes mudanças físicas que ocorrem nas crianças e à maior capacidade de absorção de cálcio nessa época, a ingestão do nutriente deve ser maior na infância e na adolescência. Segundo especialistas, as crianças precisam de duas a quatro vezes mais cálcio por quilo de peso que os adultos.
A carência desse mineral pode ocasionar ossos mais fracos, com maior tendência a fraturas, e risco mais acentuado de desenvolvimento de osteoporose em idades mais avançadas. Em casos muito graves, também há chances de desenvolvimento de raquitismo e osteomalácia (desmineralização óssea), doenças mais raras. Sem contar com os efeitos no crescimento. Apesar de alguns estudos nacionais mostrarem que crianças e adolescentes cresceram mais , há quem defenda até que, devido à carência de nutrientes como o cálcio e as vitaminas D e E, pode surgir um fenômeno preocupante no país. Uma geração de filhos que, na média, são mais baixos que os pais.
É nisso que o doutor em ciências de alimentos e diretor científico da Danone Research no Brasil, Guilherme Rodrigues, acredita. "A gente já observa hoje que há uma prevalência de 100% a mais de baixa estatura para a idade (na fase dos 2 aos 6 anos) daquilo que é esperado pela Organização Mundial de Saúde. Muito provavelmente, nas próximas medições que fizermos ao longo do tempo, vamos perceber que essa situação do comprometimento da estatura vai ser agravada", prognosticou Rodrigues. Segundo ele, as primeiras evidências desse fenômeno poderão começar a ser notadas na próxima geração. Possivelmente, nos filhos de quem hoje está na casa dos 20 anos.
Por motivos diferentes, a alimentação de Silas e de Mariana não é das melhores, segundo as próprias mães. Os dois consomem pouco leite e produtos lácteos, por exemplo, que são grandes fontes de cálcio. "Ele gosta de leite, mas às vezes não tenho dinheiro para comprar", disse a mãe de Silas, Edlene Ataíde. "Para fazer ela tomar leite, é preciso muita negociação. Iogurte eu tenho deixado de comprar porque tenho dúvidas quanto à conservação do produto no supermercado", afirmou a mãe de Mariana, Ana Cláudia Pessoa, ressaltando, no entanto, que, segundo acompanhamento feito por um pediatra, o crescimento de Mariana está normal para a idade.