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O livro está pronto, apenas aguarda patrocínio para publicação. Por enquanto, são 350 páginas encadernadas e escritas nos oito meses subseqüentes à viagem. O título Índia e Butão: os caminhos que percorri, uma abordagem arquitetônica, religiosa e turística apenas sugere a intenção da arquiteta Cláudia Estrela Porto, 46 anos. Quando decidiu passar 100 dias viajando pela Índia e Butão, Cláudia tinha alguns planos: encontrar seu mestre espiritual, Bokar Rimpotchê, da linhagem do budismo tibetano da qual faz parte, e ser uma observadora mais atenta de um país com o qual tem profunda identificação. "Já conhecia a Índia, mas queria ficar só lá, testar limites. Sem interagir com as pessoas não se conhece o lugar. Minha viagem não tinha apenas o propósito religioso ou arquitetônico, queria mesmo conhecer a fundo", descreve Cláudia.

Ela tinha um roteiro mais ou menos planejado: Nova Délhi, Goa, Mumbai, Rajastão e, se possível, Butão, pequeno país que faz fronteira com a Índia ao Norte, onde só é possível entrar como convite ou um visto temporário, difícil de conseguir. Os poucos que conseguem autorização para visitá-lo obedecem a um itinerário prévio, sempre acompanhados, além de pagar US$ 200 por dia. Tudo para preservar as tradições.

Não foi uma viagem fácil. Munida de uma lista com amigos dos amigos, Cláudia percorreu distâncias curtas e longas de avião, trem, ônibus, carro. Sentiu calor de até 48 graus. "Houve momentos em que fui quase ao limite", admite. Ficou em hotéis, pousadas e palácios de marajás, relacionou-se com gente de todas as castas.

O momento mais especial, no entanto, foi o encontro com o mestre Bokar Rimpotchê. Cláudia é budista há mais de 20 anos, fundou junto com o então marido o Centro Budista Tibetano Kagyü Pende Gyamtso, em Sobradinho, já havia visitado os lugares sagrados da Índia. Mas nada como os ensinamentos e as bênçãos recebidas diretamente de seu mestre. Meditou com ele. Recebeu amuletos e presentes. Por meio de parentes de Kalu Rimpotchê, chefe da escola Shangpa Kagyü, a que pertence,conseguiu chegar ao Butão. Acompanhada por um lama, visitou os Dzongs (fortalezas), mosteiros, viajou até o interior, local de pouquíssimo acesso. Voltou à Índia e depois saiu de lá chorando. "A viagem me deu tempo de conhecer a mim mesma e ao outro. Depois disso, o meu olhar se dirige mais para a realização espiritual."

"Em 2006, trabalhava como repórter, mas havia retomado meu curso de administração. Decidi fazer o curso por achar que todos devem ter noção de como administrar a carreira, a vida, sem falar que venho de uma família de empreendedores. Depois de um ano, recebi um e-mail de um amigo que acabara de voltar do México, informando que o programa de intercâmbio que ele participava havia aberto seleção para China, Índia e Venezuela. O prazo de inscrições acabava em meia hora! Inscrevi-me e fui selecionada. E aí, para que país iria? Bem, Olimpíadas, a chance de aprender a língua do futuro e conhecer de perto o país que estava mudando a ordem econômica do mundo e que ainda esconde tantos mistérios: China. Cheguei em outubro de 2007, em Wuhan, interior da China, sozinha, sem falar um "oi!" em chinês para trabalhar num hotel. Passei por poucas e boas. O eixo do mundo mudou. Eu fazia parte dos 10% dos estrangeiros na cidade. Meu círculo de amigos passou a ser formado por indianos, árabes, uzbeques, cazaques, indonésios, vietnamitas. Depois do contrato de seis meses no hotel, mudei-me para Xangai e hoje estou estudando chinês e trabalhando em projetos de países ocidentais na China. Não sei se volto. Só sei que não me arrependo. Não posso dizer que 100% do tempo tudo foram rosas. Mas, as coisas que vivi aqui mudaram meus horizontes, minha forma de pensar. De repente, parece que o mundo ficou pequenininho. Arriscar é algo que sugiro a todos que tenham a coragem de se abrir para o diferente".

Ana Addobbati, 26 anos


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Edição de domingo, 9 de novembro de 2008 
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