Em 2004, a arquiteta Cláudia Estrela Porto, 46 anos, tirou uma licença de três meses, juntou com um mês de
 A arquiteta Cláudia Estrela passou 100 dias na Índia, com símbolos budistas: "Fui quase ao limite". Foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press |
férias e embarcou numa viagem de 100 dias pela Índia. Na bagagem, pouca roupa, laptop, guias, remédios e algumas certezas, entre elas, a disposição de ficar só, de testar limites e de interagir com pessoas de uma cultura que ama. Em 2007, a jornalista e estudante de administração Ana Addobatti, 26 anos, foi selecionada para um programa de intercâmbio, que a levou de Pernambuco para a China, onde mora hoje. Sua filosofia de vida era conhecer o mundo, quebrar barreiras, vencer preconceitos. Conseguiu: na primeira balada no Oriente, seu círculo de novos amigos passou a incluir vietnamitas, afegãos, uzbeques, indonésios e palestinos.
Cláudia e Ana são parte de um grupo, cada vez maior, de pessoas que decidem interromper a rotina e fazer uma grande viagem - algumas, sem volta. As experiências vividas costumam virar grandes e ricos relatos, como as 344 páginas do livro Comer, rezar, amar, o registro do ano em que a jornalista e escritora americana Elizabeth Gilbert tirou uma espécie de licença sabática para buscar o equilíbrio. Depois de um divórcio conturbado e uma longa depressão, ela passou três meses provando os sabores da mesa na Itália, outros três meditando na Índia e encerrou sua viagem na Indonésia, onde conheceu um brasileiro, hoje seu marido (leia trechos do livro e uma entrevista com a autora na página 6). Mas o que faz a história de Elizabeth ser um retumbante sucesso, a ponto de vender 4 milhões de exemplares - 100 mil só no Brasil, onde permanece há 30 semanas na lista dos livros mais vendidos?
Um tempo na rotina
Para a psicodramatista Solange Mesquita Gomes, especialista em EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, psicoterapia por meio dos movimentos oculares), o "sair em busca de si mesmo" tem três porquês, que se interpõem e intercalam:
1 O primeiro, ilustrado pelo livro Comer, rezar, amar, é o de afastar demandas e fontes de estresse para que a pessoa possa ouvir a si mesma, cicatrizar a alma e relativizar o próprio mundo, olhando-o distantemente. Quando estamos machucados, precisamos nos concentrar no ferimento para fazer o curativo e para trocá-lo constantemente.
2 O segundo, não menos importante, representado pelo ano sábatico encampado por muitas empresas, é o descanso propriamente dito, que melhora a capacidade criativa, a capacidade laboral, a resiliência. A pessoa que não dedica tempo ao descanso, ao exercício do ócio criativo, ao convívio com a família, amigos e outras pessoas fora do âmbito da empresa tende a perder a capacidade de visualizar os problemas, perde a capacidade de encontrar soluções simples e criativas. A saúde mental depende da variação dos problemas a serem resolvidos e o corpo precisa de exercício e descanso. A mente sadia precisa de estímulos diversificados para encontrar novos caminhos.
3 O terceiro é a realização de desejos que não puderam ser contemplados ao longo do tempo em que o indivíduo lutava para conquistar seu lugar no mundo (vestibular, concurso, pós-graduação, mercado de trabalho, busca do parceiro afetivo), por exemplo, conhecer o mundo a que pertencemos. Na maioria das vezes, sucumbimos à rotina que nos impele a deixar nossos sonhos em segundo plano em busca da sobrevivência financeira. A sociedade cria necessidades para os indivíduos obrigando-os a dedicar mais tempo ao trabalho e menos tempo ao lazer, à família. Trabalhamos até 15 horas por dia para suprir necessidades de consumo que, muitas vezes, não são indispensáveis.