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Entrevista // Orgulho de mãe-coruja
A publicitária Lina Rosa fala com carinho da família e do projeto Sesi Bonecos
Diogo Carvalho // Diario
diogocarvalho.pe@diariosassociados.com.br


"O Sesi Bonecos é uma ferramenta de valorização cultural. Ele mostra a força do mamulengo que, se vem de

Foto: Helder Tavares/DP/D.A. Press
mão-molenga, provou que tem pulso firme e é capaz de segurar multidões". É com orgulho de mãe-coruja que a publicitária Lina Rosa Kottas fala de uma de suas mais bem-sucedidas criações. O festival, que já rodou todos os estados brasileiros e foi visto por mais de de 1 milhão de pessoas ao longo de quatro anos, termina outra temporada gratuita no Recife neste domingo, às 16h30, no Marco Zero.

A cultura fascina Lina desde pequenina, como faz questão de ressaltar. Há sete anos, ela recebeu o convite para criar eventos culturais para um projeto que já carregava a sua assinatura, o Jardim Cultural, festival de arte e cultura de Belo Jardim. Foi assim que tudo começou. Veio o Cine Sesi, projeto de cinema pelo interior, e o teatro de formas animadas, que é o xodó de Lina nos últimos anos.

Hoje, ela é sócia e diretora de criação da Aliança Comunicação. Casada com o fotógrafo Hélder Ferro e mãe de Guilherme, de 15 anos, e João, de apenas três meses, essa recifense divide seu tempo entre a publicidade, a produção de crônicas e a criação de roteiros e projetos culturais. Durante uma pausa na mudança que fazia em seu apartamento (ela acaba de trocar o bairro das Graças por Casa Forte), Lana conversou com nossa equipe. O local não poderia ser mais agradável: as poltronas do Teatro de Santa Isabel. Confira.

Como é Lina Rosa fora desse mundo de bonecos?

Eu sou uma pessoa um pouco rebelde. Não conseguiria estar amarrada a fios e movimentos. Acho que na vida real eu não tenho nada de boneca e não quero que meus filhos tenham. Acho que somos todos muito livres. Me considero uma pessoa normal, como qualquer outra. Mas acredito na arte como um caminho de transformação.

É preciso muita coragem para encarar um desafio como o Sesi Bonecos?

Na verdade, acho que é preciso ter muita loucura e muita razão. Os dois sentimentos têm que estar juntos para dar força nessa empreitada. Mas acredito que eu seja muito mais louca que racional, ultimamente. Resolvi fazer minha mudança justo nessa semana. (Risos)

Então, qual foi a maior loucura que você já cometeu?

Ah... Acho que estou em débito com minha loucura. Tenho sido um pouco moderada, não fiz nada muito maluco ainda, nem na adolescência. Acho que ainda está para acontecer. E com certeza teremos que registrar. (Risos)

As mulheres sempre são alvo certo da publicidade. E paravocê, como é ser uma mulher de sucesso dentro do mercado publicitário?

Mesmo que haja mais homens no ambiente da criação publicitária, nunca me senti diminuída. Nunca tive grandes dificuldades. Acho que pelo fato de eu nunca ter ligado muito para essa coisa de ser mulher. Sempre corri atrás do que queria, sem me importar com esses preconceitos em relação aos gêneros. Acho que o fato de ser mulher até ajuda, te dá mais sensibilidade. Dizem que, dentro do universo feminino, as pessoas se sentem mais acolhidas.

Os homens têm que aprender a serem mais acolhedores?

Acho que falta aos homens partir para prestar atenção em outras coisas além do trabalho. Acolherem a vida por completo. Eu dei sorte, pois nos meus dois casamentos tive sempre a compreensão dos meus maridos. Houve sempre trocas de experiências, além das relações de carinho, claro. Isso me deu muita força para conseguir o que tenho hoje. Toda mulher precisa disso.

Qual o diferencial que você acha que tem para ter se dado tão bem?

Acredito que a publicidade precise respeitar sempre o próximo. Cerca de 80% dos meus projetos são na área cultural. Procuro estimular as formas de inteligência, sem preconceitos. É possível sim ser criativo com a grande população, com a massa. Mas antes, precisamos aprender a dialogar com a inteligência deles. Esse é o nosso desafio.

E o que acha da maneira que as mulheres são utilizadas nas campanhas publicitárias?

Fico muito chateada com a maneira que elas são banalizadas, principalmente nas campanhas de bebidas alcóolicas. É algo surreal. São propagandas que incitam sublinearmente a violência e o preconceito com a figura feminina. Mas acho que isso não ocorre apenas na publicidade. Ela é só um ponto num todo bem maior. A sociedade é assim. Se você for olhar a programação dos canais abertos, tem coisas do arco-da-velha.

De que maneira uma publicidade te conquistaria?

De duas formas: me emocionando, mas sem pieguices, nada de manipular choro. (Risos) Deve mostrar algo simples e natural. A outra seria com um humor bem feito, quando me surpreendem com algo novo.

Então esse lance de apelar para a sexualidade não está com nada?

Engraçado como essas propagandas apelativas são tão freqüentes. Acho que falta ao brasileiro maturidade sexual. Parece que ele está vendo tudo por um buraco de fechadura. A sexualidade ainda é vivida de forma adolescente, imatura. Isso reflete na produção dessa publicidade que vemos. Creio que existe o desejo e a conseqüência desse desejo. Isso poderia ser utilizado. Mas continuamos a usar o apelo de uma maneira rasa.

Se você pudesse criar um mundo de bonecos, como ele seria?

É isso que o filme Matrix propõe, que nós já estamos nesse mundo, que existem fios invisiveis que a gente não sabe direito de onde vem. Eu acho que seria legal que a gente propusesse um mundo de bonecos, que fosse de fato "de bonecos", onde a gente soubesse que estava brincando e deixasse qualquer outro tipo de manipulação de fora. A grande vantagem do boneco é que a gente sabe que é uma grande brincadeira, ninguém está enganado ninguém. É uma grande imaginação, um realismo mágico, fantástico.

Dá para perceber que você é bem vaidosa, não?

Ah, sou vaidosa como toda mulher. Lembro que quando era mais jovem, detestava que as pessoas me achassem "bonitinha". Eu queria ser a "inteligente". Hoje, aos 37 anos, a gente adora ser chamada de "bonita". (Risos) Sou uma mulher moderna, com pouco tempo para cuidar da casa, mas a administro bem. O tempo que tenho livre é mesmo para curtir a minha família.


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Edição de domingo, 9 de novembro de 2008 
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