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Diario Urbano

Solo de trombone

Hoje, no Brasil, poucas situações exigem tratamento tão delicado quanto aquelas que envolvem a infância e adolescência. Felizmente. Por isso mesmo, deixando de lado a intenção da campanha Basta de rua (sem dúvida, das melhores), ficou evidente que na primeira tarefa a GPCA - encarregada de fazer cumprir nove mandados de busca e apreensão contra famílias reincidentes no crime de transformar filhos menores em pedintes com lugar cativo nas principais ruas do Recife - escorregou nesse cuidado. Com o alarde em torno da operação, os alvos dela, é claro, trataram de ficar bem quietinhos em suas comunidades, fora do alcance do delegado Zanelli Alencar, que só conseguiu se livrar de cinco mandados e descobrir duas famílias com crianças em situação de exploração e constrangimento. Quem acompanhou o trabalho acha que os policiais foram um tanto quanto, digamos, desajeitados na abordagem, pois o pânico instalado mediante a ameaça de ficar longe da família, por ordem judicial, acabou provocando choro, tremores e insegurança, indicativos de que as equipes deveriam estar melhor capacitadas para evitar, no mínimo, consternação. Antecipando-se à possibilidade de uma interpretação ruim por parte da imprensa acerca do episódio em que um adolescente acabou algemado, a coordenadora da área de direitos humanos da Associação Beficente Criança Cidadã (ABCC), Cláudia de Azambuja, foi logo explicando: tratava-se de menor infrator sem ligação nenhuma com a operação e disposto a perturbar o trabalho de Alencar. Mesmo assim, o delegado sabe que, por lei, está proibido o uso de algemas em situações em que a vítima não represente ameaça nenhuma à segurança de quem a conduz. Para atingir o objetivo de proteger a infância, substituindo a rua por um lugar ao sol na comunidade, a ABCC precisa de policiais mais preparados para lidar com a questão. Porém, historicamente, tem sido assim: quando se espera que a polícia toque violino, ela faz um solo de trombone.

Elogios // A primeira voz se levantou na Assembléia Legislativa, ontem, a favor da campanha desenvolvida pela Associação Beneficente Criança Cidadã. Na tribuna, a deputada Miriam Lacerda (DEM) elogiou a iniciativa e disse que ela precisa se estender a todo o estado, já que nas grandes cidades do interior a exploração é a mesma.

Estraga-prazeres // Para saudar com algum otimismo a abertura do 36.º Congresso Brasileiro de Agências de Viagens, ontem, operadores e donos de agências não quiseram saber notícias sobre o movimento nas bolsas de valores. E quem insistia em lembrar que o dólar beteu de novo na casa dos R$ 2,40, era considerado estraga-prazeres.

Turismo e arte // Mesmo na Abav 2008, onde só se trata de turismo, os estandes abrem espaço para o ecologicamente correto. A Infraero, por exemplo, transformou em bolsas banners usados em campanha, com a assinatura do projeto ParanoArt. Os brindes nascidos da reciclagem encheram os olhos.


Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A Press


Não se sabe como, diante dos ataques a que são submetidos, sobretudo de usinas e indústrias, afluentes do Rio Beberibe conseguem se manter vivos. Este resiste em Camaragibe.

Um lado só // Apesar de jornalistas matarem e morrerem por uns numerozinhos, eles são uma temeridade porque, aqui e ali, revelam-se capengas, só atendendo a interesses de um lado. Mas o Ministério da Saúde lança pesquisa apontando que entre julho e agosto 32% dos motoristas, ao decidir tomar umas e outras, deixaram o carro na garagem.

Mais frouxa // Evidentemente, os acidentes caíram a olhos vistos nos dois primeiros meses de implantação da Lei Seca, mas os números não continuaram generosos assim. Os estados não têm banco de dados próprio para acompanhar o quadro (maior reclamação dos Detrans em todo o país) e, também a olhos vistos, a fiscalização foi relaxada.

Desafinados // Quinze quilômetros da orla de Paulista lutam para escapar do apetite do mar, mas são devorados pela falta de entendimento entre a prefeitura e o Ministério da Integração Nacional, adivinhem em qual quesito - dinheiro, claro. Como o governo federal não liberou os recursos para as obras de contenção, o município elabora novo decreto prorrogando o estado de emergência por mais 90 dias.

A única // Embora o Instituto Aggeu Magalhães, da Fiocruz, tenha respeitáveis trabalhos sobre a filariose, a OMS continua dizendo que a Região Metropolitana do Recife é a única do Brasil a apresentar endemias da doença. Nota-se que falta um intercâmbio maior entre prefeituras, universidades e instituições de pesquisas.

Garota-livro // Festa literária, em princípio, preocupa-se apenas com atividades ligadas a livros, mas a edição 2008 da Fliporto (Porto de Galinhas, 6 a 9 de novembro) quer eleger a garota-símbolo do evento. A mais bela vai garantir uma cesta básica gordinha levando para casa R$ 1 mil.


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Edição de quinta-feira, 23 de outubro de 2008 
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