Abandono de dar dó
Conheci a cantora Alcione em uma comunidade muito pobre do Rio de Janeiro, a Gardênia, bem perto da Cidade de Deus, em 1998. Estava em um centro espírita que freqüenta com a família, trabalhando e levando comida para alimentar os médiuns, depois de encerrada a sessão. Quando soube que eu era do Recife, danou-se a fazer um tour gastronômico por locais que trazia na memória. Apaixonada como é por boa comida, ficava claro que, para ela, a cidade estava representada pelo sabor. Mas na cabeça da maioria dos visitantes o que fica mesmo são os lugares. E a Casa da Cultura está quase que invariavelmente na lista dos locais mais citados. Não parece lógico que sendo referencial tão importante deveria merecer atenção especial da Fundarpe, por quem é administrada? Deveria, mas na última quarta-feira mesmo dava para enxergar o tamanho do descaso. Para os poucos visitantes, os problemas já se mostravam visíveis no estacionamento: de onde eram tantos carros se o local parecia às moscas? De pessoas que iam para outros endereços. Significa que os guias de turismo, ao se deparar com o estacionamento cheio, mostram apenas a fachada do prédio e vão circular com os grupos no entorno. A insatisfação dos locatários com a falta de movimento anda tão à flor da pele que basta meio dedo de prosa para se revelar. Segundo eles, o governo do estado não se preocupa em divulgar o local e a maioria dos visitantes nem chega a ir ao primeiro andar onde as lojas são até mais amplas. É que os elevadores nem sempre estão funcionando. Da Rua da Aurora, praticamente já nem é possível enxergar o imóvel, porque o manguezal subiu muito. Ano do Turismo no Recife, o assunto bem que poderia motivar uma encontro entre a Setur e a Fundarpe, que trabalham no mesmo lado do balcão, vendendo o mesmo peixe: o estado.
Melhorzinha // Uma das orlas mais desmanteladas do Litoral Sul, a de Gaibu, vai ter melhorado em um período de 12 meses o sistema de abastecimento de água e de esgotramento sanitário, notícia trazida pelo ministro do Turismo, Luiz Barreto, esta semana. Custará R$ 15,6 milhões. Mas são tantos os recursos anunciados pela Setur que a população não vê a hora de enxergar as obras vindas deles.
Uma verdade // O documentário Uma verdade inconveniente, de Al Gore, virou bíblia no mundo inteiro para ambientalistas preocupados com as mudanças de clima no planeta. Vai ser também o ponto de partida para uma discussão na Faculdade Santa Maria, segunda-feira, reunindo o médico Marcelo Mesel, da Sociedade Nordestina de Ecologia, e os engenheiros Rodolfo Aureliano, da Agenda 21 de Olinda, e Bertrand Sampaio, da Aspan.
Planos alterados // Com o pulo do dólar no mundo, redirecionar os roteiros para destinos domésticos garante a sobrevivência das férias e das agências que fazem receptivo. Uma das maiores operadoras do mercado lança pacote oferecendo três dias em Petrolina, com aéreo, hospedagem no Petrolina Palace Hotel e café da manhã incluso. Em 10 vezes (sem juros) de R$ 46.
Bom inimigo // Aliás, neste aspecto, a crise vem ajudando um bocado nos planos de interiorização do turismo imaginados pela Setur, que quer o máximo de divulgação em torno da rota do vinho (Vale do São Francisco). Mesmo hoje , a fama dos vinhos de Petrolina já é das melhores e está na boca inclusive de guias chilenos encarregados de despejar turistas nas vinícolas de lá.
 Foto: Osmário Marques/Esp. DP/D.A Pres |
A acessibilidade, no Recife, esbarra no problema habitacional. Os sem-casa acabam nas calçadas, áreas sagradas dos pedestres, e engrossando a lista de obstáculos à livre passagem dos caminhantes - com deficiência ou não.
Gordo sofre // Primeiro foi um deus-nos-acuda para implantar vagas exclusivas que atendessem a pessoas com deficiência e idosos. Não chegou-se a nenhum lugar pela insistência dos infratores em fazer vistas grossas à medida. Depois vieram os apelos para ajustar espaços e equipamentos às necessidades de obesos. Foram tão tímidos que eles desistiram até de ir ao cinema. São socorridos pelos DVDs.
Perplexas // A população fica entre irritada e perplexa quando vê uma obra recente sofrer ajustes que poderiam ter sido pensados mais cedo, evitando-se o desperdício de recursos públicos. Pelas queixas que chegam à coluna, a bola da vez são as paradas de ônibus da Avenida Caxangá, cujas grades vieram abaixo para permitir que o piso seja elevado em 30 centímetros, facilitando o embarque e desembarque de pessoas com deficiência.
Não matarás // E um dos mandamentos, "não matarás", inspira projeto da Pastoral da Saúde da Arquiocese de Olinda e Recife, construído com base na conclusão de que "o homicídio é hoje a maiorchaga do ponto de vista sanitário e social em Pernambuco". Desde sexta-feira, quando a campanha foi lançada, comunidades passaram a ser alvo de ações que pretendem sensibilizar para a cultura da vida.