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Entrevista // Felipe Calheiros



"Todo mundo sonha chegar em algum lugar "

O diretor de Até onde a vista alcança define seu curta metragem como uma produção engajada. Só se interessa por esse tipo de vídeo. Já produziu outros três (Preservação da Memória, 2005; Mais um encontro da família 2006 e Reforma Universitária, 2007). Até 2004, era bancário. Conheceu a comunidade quilombola "Serrote de gado bravo", em São Bento do Una (PE), e deixou o direito e a administração do lado para exercer a militância por meio da arte. Cursa hoje mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento Local na UFRPE. Até onde a vista alcança foi todo gravado em câmera digital; Felipe bancou as viagens com recursos próprios e finalizou o projeto com os amigos do Coletivo Asterisco, um grupo de profissionais que trabalha com produções audiovisuais. O filme já conquistou quatro prêmios, duas menções honrosas e foi selecionado para 21 festivais internacionais. Começou no Câmera Mundo em Rotterdam, na Holanda, e até o final de outubro irá para EUA, México e Filândia. Ao lado, a entrevista do diretor:

Você esperava essa repercussão?

Quando a gente gravou e finalizou o filme, tínhamos um pensamento: era importante que ele servisse para levar adiante a causa quilombola. Então, muitas escolhas técnicas e estéticas passaram por esse interesse de alcançar o maior público possível. Queríamos que o filme, além de servir como obra de arte, servisse como obra de militância.

Você tem um envolvimento com essa militância negra ou dos quilombolas?

Tenho. Caí no documentário e na fotografia por esse caminho. Produzo documentários com esse tipo de tom político. Não me interessa outro tipo de produção. Aliás, meu mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento local na UFRPE é nessa área.

Então, na sua tradução, o filme precisa ser engajado socialmente...

Perfeito. Eu faço filme para tentar mexer o que está estabelecido.

O que você buscou com o documentário?

Não tive interesse em fazer um filme didático e pedagógico. Quis fazer com que o espectador olhasse para as imagens e se identificasse,porque todo mundo tem um sonho de chegar em algum lugar. Tivemos preocupação também com algumas informações importantes para o movimento, como a questão fundiária. Temos 100 comunidades no estado, 75 reconhecidas pelo governo e nenhuma conseguiu regularizar a terra.

Como surgiu a idéia do vídeo?

Dois pesquisadores - Helton e Ronaldo - me falaram que moradores do Sambaquim estavam interessados em fazer um bingo para conseguir recursos e conhecer a praia. Eu estava fazendo um vídeo de preservação da memória da Faculdade de Direito; mas nunca tinha pego na câmera. Quando estive em Sambaquim, pensei que a história não era um ensaio fotográfico; era um filme. Usei uma câmera amadora, botei combustível e fui embora. O filme é totalmente produzido numa câmera amadora digital. A experiência da imagem é uma experiência sensorial que todo mundo tem.

Durante as filmagens, vocês se deram conta do impacto que o filme poderia causar na comunidade?

A minha preocupação maior quando filmava era entrar no sonho daquela pessoas. Na hora de finalizar, eu coloqueiem prática meu lado estratégico de atuação política, meus conhecimentos em direito e administração para tentar dar um alcance maior ao filme.


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Edição de domingo, 12 de outubro de 2008 
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