"O esporte não é uma fórmula mágica"
Quando decidiu abandonar as quadras em 1999, a atacante Ana Beatriz Moser transformou em realidade um sonho que acalentava há anos. Todo o carinho e reconhecimento que recebeu, enquanto defendia a Seleção Brasileira de Vôlei, Ana queria retribuir. A desigualdade social e as poucas oportunidades para as classes menos favorecidas sempre lhe causaram inquietação. Foi pensado assim, que a ex-jogadora reuniu alguns profissionais e criou núcleos esportivos em bairros carentes de São Paulo. Mais tarde, Ana Moser fundaria o Instituto de Esporte & Educação. Há sete anos, ela exerce o cargo de diretora-presidente. Em quadra, esta catarinense de 38 anos, era conhecida pelo seu potente ataque e seriedade. Fora dela - e cercada de crianças e adolescentes -, Ana é doce e comprometida. Nesta entrevista, ela nos fala um pouco de sua experiência à frente do Esporte & Educação, da importância do esporte na vida da criança, bem como as dificuldades existentes para projetos sociais se manterem.
Qual a importância da prártica esportiva na vida das crianças?
O pensamento e o movimento são ações totalmente interligadas. Na infância, as crianças aprendem novos pensamentos e movimentos com muita intensidade, vão se desenvolvendo e agregando novos conhecimentos cognitivos e coordenações motoras, aprendendo a se colocar e se relacionar com o mundo. Algumas linhas científicas defendem que o aprendizado motor é o melhor meio para se chegar ao aprendizado cognitivo e emocional. O esporte é uma das manifestações motoras que podem desenvolver as crianças de maneira global, respeitando o indivíduo como um todo: corpo e mente. O esporte tem um fator importante que é o ambiente do jogo, com suas regras e simbologias, suas tarefas e estratégias, auto-conhecimento e superação. Ou seja, é um ambiente envolvente por natureza, muito rico em experiências e oportunidades de aprendizado.
É benéfico a introdução do esporte de forma lúdica para os pequenos?
O esporte, como jogo, é lúdico por natureza, mesmo nas grandescompetições ainda resta muito de ludicidade. E todos sabem que a criança aprende melhor quando aprende brincando, com prazer e com sentido. O corpo e a motricidade é a linguagem mais próximo àquilo que a criança entende e se relaciona. É claro que o esporte das crianças não é o mesmo do esporte competitivo que assistimos em Olimpíadas, por exemplo. As crianças devem praticar o esporte educacional, onde o esporte é um meio e não o fim. No Instituto Esporte & Educação, entidade que criei e dirijo há 7 anos, defendemos 5 princípios para o esporte educacional: inclusão de todos, construção coletiva, direito à diversidade, educação integral e rumo à autonomia.
Qual o principal obstáculo para projetos que atendam crianças de baixa renda se sustentarem?
Políticas Públicas e prioridade para o setor produtivo e sociedade. Se não pensarmos e fizermos uma nova realidade, nunca conseguiremos produzir resultados diferentes destes que temos hoje. Muito já se avançou, mas ainda há pouco recurso financeiro e vontade política para implantação de serviços básicos para toda a população brasileira, sem dúvida.
Você teria algum exemplo ou experiência para contar sobre a relação esporte x criança?
Teriam inúmeras. As crianças se desenvolvem em todos os sentidos. Na escola elas acabam sendo diferenciadas, se tornam participativas e demonstram liderança frente aos colegas de sala. À medida que entram na adolescência, as características de liderança se fortalecem, porque esses meninos e meninas aprendem a se valorizar, a resolver coletivamente problemas nos jogos e atividades, a se comunicar com seu grupo de maneira positiva e democrática. Mas é lógico que o esporte não é uma fórmula mágica, é na verdade um excelente meio de convivência e aprendizado. O mais importante são os valores e intenções que o educador coloca na sua atividade. Se quiser, por exemplo, simplesmente selecionar os melhores para formar um time e disputar o campeonato escolar, ele terá que excluir um grande número de alunos e trabalhar com outros valores, não poderá incluir meninos e meninas na mesma atividade, nem com outras manifestações da diversidade humana. Por isso o esporte para crianças deve carregar os princípios educacionais.
No começo você esbarrou em dificuldades?
Eu sempre tive muita sorte, porque não é fácil começar qualquer atividade, ainda mais sem recurso. Nossa maior função é mobilizar recursos para o bem público, ou das comunidades que atendemos. No meu caso, logo depois que parei de jogar, eu tive o patrocínio da Unilever, através da marca Rexona que, em 2000, já patrocinava o time de vôlei feminino, além de núcleos no Paraná. A intenção da Unilever era expandir para São Paulo e, assim, o Instituto Esporte & Educação teve na Unilever sua primeira grande parceira. Mas as dificuldades são muitas, não só da ordem dos recursos. Um trabalho nessa área de esporte educacional tem pouquíssimas referências de metodologias em funcionamento, assim criamos o nosso próprio método. Hoje disseminamos nos projetos que desenvolvemos. O próprio esporte, comomeio de educação, também sofre alguma resistência por parte do próprio sistema educacional.