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Tramas de arte e cidadania
Ações independentes formam rede de resistência solidária em comunidades do Grande Recife; o Caderno Viver inicia hoje uma série de reportagens para falar dessas iniciativas
Michelle de Assumpção // Diario
michelle.assumpcao@diariodepernambuco.com.br


É mais um último domingo do mês e a festa neste dia é na comunidade da Brasilit, um pedaço mais pobre do bairro da Várzea, Zona Norte do Recife. As crianças e adolescentes são os primeiros a se aproximar do grupo de artistas que chega para movimentar o cotidiano dos moradores. Começa pela manhã, com um mutirão de grafite que dá vida à fachadas de casas e pequenos comércios. Uma roda de break se forma por perto, sempre ao som de um DJ, que leva para o local passa-discos, amplificadores, entre outros equipamentos. Noutro espaço improvisado está montada a oficina de malabares de Joaninha. Qualquer um pode se inscrever e participar. Everson faz uma oficina de artesanato com recicláveis. À noite, os moradores aparecem em maior número, para assistir aos shows. O cavalo-marinho Boi Caboclo promove uma roda animada; ouvem-se as batidas do Coco que Roda, do seu Fernando. O negócio esquenta com o som mais alto das bandas Casas Populares da BR232, Forró de Cana, além do maracatu Leão do Norte, da Várzea. Foi o maracatu que articulou todo esse domingo legal para o povo da Brasilit.

O maracatu faz parte da Rede de Resistência Solidária. O movimento foi criado em 2005, por um grupo de grafiteiros que saía com suas turmas (crews) para colorir os bairros, em ações quase sempre marginalizadas, tanto pela sociedade quanto pela polícia. Depois a atividade se agigantou. Tomou uma proporção que seus principais colaboradores nem imaginavam. Atualmente, envolve dezenas de entidades, organizações, grupos musicais, teatrais, ambientais, de pelo menos 63 comunidades do Grande Recife.

Antes da Várzea, no último domingo de julho, o mutirão esteve em Prazeres, numa ação parecida. O DJ e demais colaboradores montaram os equipamentos sonoros; a Rádio Livre (um dos tantos coletivos que fazem parte da rede) puxou uma antena da mesa de som e começou a transmissão, ao vivo, das atividades do mutirão; o pessoal do break botou o encerado no chão (espécie de tapete onde irão deslizar com suas coreografias) para completar a tríade do hip hop: música, grafite e dança de rua.

Membros da Rede, responsáveis pela parte de comunicação, convidam os moradores mais interessados para um canto e conversam sobre seus objetivos. Quando alguém faz doação de alimentos, há lanches ou almoço. Como o que foi oferecido em Prazeres. Depois, a programação cultural corre solta: roda de break, shows, rádio aberta, projeção de vídeos e captação de imagens. Filmagens e fotografias sempre são feitas pelo coletivo Gambiarra, que também integra a Rede. Depois são exibidas em telões, para mostrar a comunidade em ação. E mais: grafitagem nos muros autorizados, microfone aberto para quem quiser passar recados, mensagens e informativos.

Galo de Souza - hoje um dos grafiteiros mais conceituados de Pernambuco - há mais ou menos cinco anos gostava mesmo era de "maloqueirar", como gosta de dizer, pelos bairros mais distantes e esquecidos do Recife. Sua viagem sempre foi a grafitagem. Não importavam as galeras decada bairro, fazia amizade com todo mundo e nunca entrou em disputas. Nem nas ruas, muito menos nos bailes funk. Ele não sabia, mas as amizades que fez naquela época já era uma experiência de "rede". Uma trama que iria unir, fortalecer e projetar ações que vinham acontecendo em diversos pontos da Região Metropolitana do Recife. Só que de forma mais isolada, praticamente anônima, ou desarticulada.

"Tem muita gente produzindo coisas boas, porque Recife é muito forte culturalmente"
Galo


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Edição de domingo, 21 de setembro de 2008 
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