 Foto: Jaqueline Maia/DP/D.A Press |
Foi o único dia triste na Casa da Rabeca desde 2002, quando passou de sonho do Mestre Salustiano a realidade. Ontem, o terreiro da Casa foi o lugar do velório de Salú, que morreu na manhã do domingo, aos 62 anos, de enfarto. Dezenas de coroas de flores arrodeavam o terreiro e golas de maracatus foram expostas na parede, assim como vários adereços das brincadeiras todas comandadas por ele. Atrás do caixão, coberto com a bandeira de Pernambuco, foi colocada uma mesa com as rabecas usadas e feitas pelo mestre, incluindo uma que ele não chegou a terminar. E ventiladores, pois o calor era intenso. As filhas e os parentes mais próximos tomavam conta do corpo do pai. Alisavam sua cabeça, choravam, falavam. O semblante cansado já de tanto sofrimento, desde a notícia do falecimento - de certa forma, repentino, pois todos acreditavam na recuperação de Salú, que sofria do mal de Chagas e havia sido internado por problemas com seu marcapasso. Perto da hora em que o corpo sairia em cortejo até o cemitério Morada da Paz, há poucos metros da entrada da Cidade Tabajara, o povo começou a chegar para se despedir do maior mestre da cultura popular de Pernambuco.
No começo, o culto foi religioso. Salustiano e parte da família, como o pai, João Salustiano, são evangélicos. Depois de cânticos e orações da sua igreja, foi a vez da celebração em forma de espetáculo, que era como o mestre deveria querer que fosse seu enterro. Sem choro, minha gente! Mas a verdade é que ninguém conseguiu segurar a lágrimas ao ouvir as palavras do filho Maciel Salú. Ele fez agradecimentos: aos médicos, aos enfermeiros que cuidaram de Salú, aos irmãos e aos 23 netos do mestre, e sobretudo a Leda Alves, uma das maiores amigas de Salustiano, desde que ele começou a investir nos seus "brinquedos populares". Leda disse ter certeza de que os filhos de Salú, tendo convivido debaixo do comando dele, iriam continuar o caminho, cada um na sua função. A continuidade da obra de Salú, aliás,era citada por todos que se arriscavam a dar um depoimento naquele momento. Maciel terminou seu discurso gritando um obrigado ao pai. Com o apito de mestre na mão, convocou os demais maracatuzeiros para a derradeira sambada de Salú.
À essa hora, os caboclos de lança - ônibus cheios de folgazões vieram de Aliança, Goiana e outros municípios da Zona da Mata - se coloram de um lado e de outro do caixão. E muitos mestres de maracatu - João Paulo, Barachinha, Cajú, Zé Duda, Siba, o próprio Mestre Ferreira (que junto com Salú "puxava" o Piaba de Ouro), entre outros - foram para o lado de Maciel, no palco da Casa da Rabeca. Sentado, o filho Cleiton era só emoção. Pedrinho, discípulo de Antônio Carlos Nóbrega, tentou dançar mas desmaiou quando Maciel começou a sambada. Cada mestre teve sua vez para improvisar versos de despedidas a Salustiano. Os filhos Manoelzinho e Cleiton também homenagearam o pai. "Quero dizer para minhas irmãs que meu pai se foi, mas queria que a gente continuasse", falou Dinda, ao microfone. Efoi assim, ao som de samba de maracatu misturado com choros, versos, palmas, fogos de artifício e tiros de bacamartes, que o caixão de Salú foi fechado.
Quando o povo saiu da Casa da Rabeca para acompanhar, a pé, o cortejo fúnebre até o cemitério Morada da Paz, dava para qualquer um sentir a dimensão da importância de Salustiano. Não menos que cinco mil pessoas percorreram o trajeto, de pouco mais de um quilômetro. As autoridades começaram a ser vistas, incluindo o governador Eduardo Campos (que decretou luto oficial de três dias) e o secretário de cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna. "A cultura brasileira perdeu um artista e eu perdi um amigo. Vamos fazer de tudo pra que sua obra não se perca"" disse Ariano. A imprensa disputava espaço com familiares, amigos, fãs e desconhecidos que cercaram os filhos de Salú, na hora do sepultamento. Mais choro, mais música, empurra-empurra, Pai Nosso e Ave Maria. Salú foi enterrado sob intensa comoção. Flores jogadas de várias direções, aplausos, rostos ainda incrédulos. O povo saía mudo do cemitério. Citando João Paulo, do Leão Misterioso, na hora da sambada do sepultamento: "A cultura perdeu um mestre que não tem substituto".