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O Cabeleira, o cabra ruim


Arte: Allan Alex, Leandro Assis e Hiroshi Maeda
Lampião é um controverso personagem da nossa história. Paira sobre sua imagem o paradoxo do herói Robin hoodiano e o carrasco sanguinolento, implacável. Sua atitude insurgente contra o poder feudal dos coronéis é vista por muitos como a postura dos homens de grandes feitos, personagens da literatura ou história clássica. Seus métodos, porém, ofuscam qualquer virtude encontrada em suas ações. Antes de Lampião, ainda no século 18, outro personagem não tinha a ambigüidade ou contradição como característica. Ele era só ruim mesmo. Muito ruim.

O Cabeleira, como era conhecido no Sertão pernambucano, foi o pioneiro do banditismo como opção e estilo de vida. Na verdade, o primeiro a fazer parte do inconsciente coletivo de uma população. Cabeleira era temido como uma assombração, só que ele era de verdade. Para se ter uma idéia, só a notícia de que ele vinha com o pai e Teodósio (comparsas com quem formava o 'trio parada dura') para a então vila do Recife, fez comque muitos moradores se escondessem nas matas vizinhas. Seu caminho era literalmente uma trilha de sangue. Roubava dos pobres, dos ricos, da igreja, matava mulher, velho, criança... Extremamente violento e forte, José Gomes - o Cabeleira - encontrou no pai mais que um professor, um parceiro para a barbárie.

Muitas de suas histórias são contadas no livro de quadrinhos O Cabeleira, lançado recentemente pela editora Desiderata. Inspirado no romance de Franklin Távora, a publicação é a mais recente aposta no casamento literatura/quadrinhos, união que já virou filão editorial. Originalmente concebido como roteiro para cinema pelas mãos dos roteiristas Leandro Assis e Hiroshi Maeda, foi nos quadrinhos de Allan Alex que tudo ganhou forma. A adaptação daquele que é considerado o primeiro romance regionalista, mostra competência ao dar ritmo e linguagem atual a uma história instigante e assustadora. Os desenhos ágeis revelam muito do potencial cinematográfico do roteiro e mostram uma sintonia fina entre os autores.A literatura defende que o Cabeleira nasceu bom, mas foi desvirtuado pelo pai, um matador veterano. Essa visão romântica encontra resistência no fato de, ainda com 16 anos, o Cabeleira ter cometido seu primeiro assassinato; o que não quer dizer que o pai não tenha estimulado e muito o potencial agressivo do filho. Quando parceiros, seu pai foi muitas vezes o mais endiabrado, o estopim que ativava "o cão" no Cabeleira.

Mesmo não tendo a mesma fama de Lampião, o Cabeleira sobreviveu ao tempo graças a um romance escrito cem anos após sua morte. Nos quadrinhos, mesmo contando uma história absurdamente violenta, o resgate é também de uma memória sobre um tempo em que meia dúzia de cabras virados no moi de quentro, como se diz popularmente, parecia querer tomar o mundo com as mãos.

Serviço

O Cabeleira
Allan Alex, Leandro Assis e Hiroshi Maeda
Editora: Desiderata Preço: R$ 39,90


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Edição de terça-feira, 2 de setembro de 2008 
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