 Artista plástica Lúcia Rosa e escritor Carlos Pessoa afirmam que o projeto é "um ensinar a viver". Foto: Jaqueline Maia/DP/DA Press |
Discretamente, esta semana o Recife recebeu a visita do coletivo paulista Dulcinéia Catadora, projeto auto-sustentável ligado à valorização da literatura como veículo para a cidadania. Com o objetivo de promover a edição de livros com baixo custo e materiais acessíveis a qualquer pessoa, em um ano e meio seu catálogo conta com autores famosos como Manoel de Barros, Haroldo de Campos e Marcelino Freire assim como nomes desconhecidos do público.
Representado pela artista plástica Lúcia Rosa e pelo escritor Carlos Pessoa, o coletivo participou do 6º Festival recifense de literatura - A letra e a voz e esteve esta semana no Nascedouro de Peixinhos e no Sítio da Trindade, onde realizou oficinas de edição de livros artesanais para alunos do ensino público municipal. O peculiar método de edição consiste não somente na escolha do conteúdo, por critérios temáticos (inquietação social) ou estéticos (inquietação formal), mas principalmente pela manufatura de capasúnicas, feitas na hora pelos jovens com tinta aplicada a pedaços de papelão jogados fora pelas pessoas e recolhidos por centenas de catadores.
"É um processo que passa pela conscientização ambiental e também pela transformação do olhar, pois vivemos num mundo impregnado pelo mercado, onde tudo está padronizado demais", avalia Lúcia Rosa, que além das atividades fixas em São Paulo, já levou o projeto à Festa Literária de Paraty, onde participou da programação paralela.
Apesar da saudável conexão com Dulcinéa, o amor idealizado de Dom Quixote, de Cervantes, o nome do grupo encontrou inspiração numa catadora maranhense, que há seis anos se sustenta na capital paulista. Dulcinéia faz parte do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, entidade procurada por Lúcia para articular o projeto, que fincou seu tripé artístico-literário-social no conceito de micro-utopias e a estética relacional defendida pelo crítico francês Nicolas Bourriaud, onde o processo de produção vale mais do que o produto final.
Tudo começou em 2006, quando Eloísa Cartonera, um coletivo argentino com proposta semelhante, trouxe sua experiência para a Bienal de São Paulo. Lúcia Rosa foi convocada pela organização do evento, que não tinha como mobilizar os catadores de papel. Por sua vez, Lúcia teve a idéia de convocar não os catadores em si, mas seus filhos.
Os livros coloridos são vendidos por módicos R$ 5, e o lucro revertido para remunerar os próprios jovens, que ganham cerca de R$ 35 reais por oficina. Para além da compensação financeira, o contato com os escritores é igualmente decisivo no processo de aprendizado.